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Caso Americanas: os temores e os aprendizados para o varejo brasileiro

Caso Americanas: os temores e os aprendizados para o varejo brasileiro - Plataforma Setor Moveleiro

Caso Americanas

Já não é mais novidade para ninguém: com cerca de R$ 43 bilhões em dívidas, 16,3 mil credores e apenas R$ 800 milhões em caixa, ou seja, vivenciando uma conta que definitivamente não fecha — isso, segundo as informações comunicadas pela própria empresa —, o caso das Lojas Americanas, que entrou em recuperação judicial na última quinta-feira (19), acende um sinal de alerta no varejo nacional. 

Assim como a fraude de provisão encontrada na Via Varejo em 2019, com impacto de mais de R$ 2 bilhões ao longo de 2020, a revelação de uma dívida de tamanha magnitude em outra das empresas mais bem-sucedidas do mercado brasileiro, invariavelmente gera dúvidas sobre a saúde financeira de outros players. Colocando, assim, a reputação e o futuro do setor como um todo em xeque.  

Para Alfredo Cutait Neto, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), contudo, o tempo deverá ser o maior aliado do setor. A curto prazo, no entanto, os impactos deverão, sim, respingar sobre outras empresas da área. Dando-nos, porém, terreno fértil para avaliarmos o cenário externo e repensarmos estratégias internas dos nossos negócios. Afinal, se toda a situação gera temores nos empreendedores e executivos, ela pode também servir como uma importante fonte de aprendizado.

Os temores e os aprendizados

O presidente da ACSP explica que um dos impactos que deverão chacoalhar a atual estrutura do mercado surge, justamente, como consequência da questão da reputação do varejo nacional. “O grosso dos empréstimos à varejista está concentrado nos cinco grandes bancos, ou seja, Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander. Embora algumas instituições menores também estejam expostas. O problema da reputação aparece aí também porque ninguém negava um empréstimo à Americanas, mas comerciantes menores, em contrapartida, muitas vezes nem são atendidos por esses bancos”, diz ele. 

Dessa forma, expondo também a reputação das próprias instituições bancárias, que além de ainda atuarem de maneira que não privilegia o crescimento de negócios mais novos e menores, não só não conseguiram avaliar o risco dos empréstimos feitos às Lojas Americanas como também podem não receber de volta o dinheiro emprestado.

A varejista tem 60 dias para apresentar um plano de recuperação judicial, que precisará ser aprovado em assembleia pelos credores. Segundo o Jornal Extra, já há conversas entre eles no sentido de buscar formar maioria para recusar qualquer plano de recuperação judicial que imponha descontos muito maiores. A expectativa entre as instituições financeiras é que ela proponha abatimento de 80% a 90%.

Assim, o caso pode levar a mudanças na regulamentação bancária, incluindo novas regras para avaliar o risco de empréstimos a varejistas. Opondo-se, portanto, aos interesses e possivelmente dificultando o desenvolvimento de outros negócios.

Confiança e transparência

Tudo isso, claro, não só gera desconfiança como também tem culminado em perdas efetivas para os investidores. “Essa é possivelmente a questão mais difícil de ser contornada: como ficam os acionistas minoritários da companhia, por exemplo, que acreditaram nela e na auditoria das contas quando decidiram aportar parte de suas poupanças nesse ativo?”, levanta a questão Cutait Neto. 

Um levantamento da consultoria Economatica para o site Estadão E-Investidor aponta que 1.057 fundos têm investimentos na Americanas. Nesse sentido, um dos casos que mais chamou atenção foi o fundo Reserva Imediata, do banco Nubank. A carteira tinha cerca de 1% de seu patrimônio alocado em duas debêntures (títulos de dívida que uma empresa vende para se financiar) da Americanas. A crise reduziu o preço desse título de dívida no mercado e devorou o patrimônio dos cotistas.

“Em algum momento, eles [os investidores] vão tentar uma reparação na Justiça”, acredita o presidente da Associação Comercial de São Paulo, que lembra ainda do impacto sobre os fornecedores, em especial os de pequeno porte. 

Cutait Neto avalia, todavia, que a operação da Americanas deve continuar e que a rede de fornecedores terá de se adaptar à solução a ser dada para a empresa. O que tem potencial, contudo, de tanto estreitar o relacionamento desses negócios com outros parceiros no varejo ou reduzir a flexibilidade nas negociações por todo o mercado, devido, mais uma vez, à baixa reputação e insegurança na área. 

Por fim, ele ressalta também que a empresa sofrerá um tempo com a desconfiança de sua clientela. “Vai demorar para recuperar. Além disso, o consumidor pode começar a buscar outro grande varejista enquanto essa desconfiança prevalecer”, diz. Dando espaço, então, para o aumento da participação de outras empresas no mercado.

Caso Americanas revela a volatilidade do mercado

Com tudo isso, não é exagero dizer que o varejo brasileiro enfrenta desafios significativos no início de 2023. Com o caso das Lojas Americanas servindo, então, como um lembrete do quão volátil e competitivo é o mercado. Com o processo de recuperação judicial da empresa devendo resultar também em diversas demissões de funcionários, afetando a economia local, que já não vai bem.

Para sobreviver e prosperar, as lojas de varejo precisam encontrar maneiras de se diferenciar e oferecer valor aos consumidores. “Isso pode incluir a oferta de produtos exclusivos, experiências de compra personalizadas e serviços adicionais, como entregas grátis, rápidas ou retiradas na loja”, fala Aline de Freitas, pesquisadora de economia e comportamento de consumo no varejo. “Além disso, as lojas precisam se adaptar às mudanças tecnológicas e aproveitar as oportunidades oferecidas pelo e-commerce”, completa.

“Entendo que falar sobre hábitos de compra e experiência de consumo num momento tão delicado como este parece algo secundário. Mas é em momentos de crise que as empresas devem encontrar oportunidades de se destacarem e saírem na liderança das mudanças que, invariavelmente, irão acontecer”, ressalta a especialista. 

Afinal, se tanto a confiança quanto o poder de compra dos consumidores estão abalados, é agora que ele deverá escolher com ainda mais cuidado as empresas e os produtos nos quais investirão seu dinheiro. Demonstrar que sua empresa é confiável será cada vez mais um fator determinante na decisão de compra dos consumidores no varejo. E é aí que aquelas três expressões que a gente tanto usa aparece novamente como uma divisora de águas: governança ambiental, social e corporativa

Ah, o tal do ESG!

Ponto que nos leva ao nosso último tópico sobre os impactos e questionamentos levantados a partir do “caso Americanas”: transparência e compliance. “Intensificar o compromisso por transparência e compliance passa obrigatoriamente pela revisão do alinhamento de interesses entre os envolvidos, incluindo stakeholders, gestores e entes regulatórios. Somente a partir dessa convergência em revelar integralmente os desafios das companhias é que poderemos evoluir para o estágio maduro proposto pela onda do ESG no mundo”, fala o CEO da Legaltech Pact, Lucas Pena.

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