Efeito dominó na cadeia de suprimentos: preço do frete marítimo está pelo menos 7,5 vezes mais alto do que em 2020

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Caminhando em uma corda-bamba nas últimas semanas, o mercado global parece estar passando por um novo momento de incertezas. Situação que nos remete ao que vivenciamos no primeiro semestre do ano passado. Com a crise na cadeia de suprimentos ganhando novas dimensões devido a mais uma onda de restrições físicas em virtude da variante Delta do Coronavírus, especulações de que o crescimento econômico esteja desacelerando, também impactam negativamente na recuperação da demanda por matérias-primas nos mais diversos setores produtivos. E ainda tem mais.

De um lado, a nova variante, de mais rápida disseminação, está aumentando a ansiedade dos investidores, com indicadores recentes mais fracos do que o esperado nos Estados Unidos e na China, sugerindo que a retomada econômica global está parando. Com isso, o mercado de commodities, por exemplo, começa a enfrentar suas piores semanas em meses, segundo avaliação dos especialistas da Bloomberg, referência em dados de mercado e notícias operacionais.

De outro, o novo acirramento do vírus ocorre enquanto os exportadores e importadores continuam reclamando dos custos de frete marítimo que já estão muito mais altos do que no ano passado. Isso não só por conta da Covid-19. Mas, sobretudo, pelos impactos que a pandemia causou, tal qual o desequilíbrio na cadeia de consumo. Com uma demanda desenfreada, em especial no e-commerce (leia matéria sobre o assunto), que gerou escassez não só de matérias-primas, mas também de navios e, principalmente,  de contêineres. Agravando, assim, a situação.

Nova alta nos preços do frete marítimo

E, bem, as últimas informações não deverão levantar o ânimo do mercado. “Acho que é [a crise logística] a maior ameaça que a economia enfrenta no momento. E ela está apenas começando a incomodar”, opina Philip Edge, executivo-chefe da Edge Worldwide Logistics, uma transportadora de cargas com sede em Manchester, Inglaterra.

Tantos ruídos deixam fornecedores e fabricantes com poucas esperanças de alívio a curto prazo. Assim como já havíamos previsto aqui na Plataforma Setor Moveleiro, o economista-chefe do Chartered Institute of Procurement and Supply (Instituto Licenciado de Aquisição e Fornecimento, em tradução livre), John Glen, acredita que a situação trará um aumento explosivo no valor dos fretes, combinado com atrasos no fornecimento. Gerando, dessa forma, consequências significativas para toda a cadeia de suprimentos global.

No Brasil, o comércio com a China tem sido o mais afetado. Para se ter uma ideia, o frete médio de importações da China registrado no Brasil em julho de 2021 foi 7,5 vezes maior do que no mesmo período do ano passado, segundo apontamento da  Logcomex.

Engarrafamento na cadeia de suprimentos

O fechamento parcial do porto de Ningbo-Zhoushan, na China, já vem agravando o congestionamento também em outros grandes portos chineses. Com navios sendo desviados para outros locais, como Xangai e Hong Kong.

Segundo estimativas das Nações Unidas, cerca de 42% das exportações globais são originárias da indústria chinesa. Causando, assim, um efeito dominó na cadeia de abastecimento, que deverá se estender pelas rotas da Ásia para a Europa e o Transpacífico. O que pode desacelerar ainda mais o fluxo de mercadorias ao redor do globo. Isso, num momento em que o mercado mundial já está tendo de se preparar para possíveis atrasos nas entregas e maiores custos de transporte enquanto trabalham para reabastecer antes do Natal.

Há exatamente uma semana, na última terça-feira, havia 141 navios em um ancoradouro compartilhado para os portos de Xangai e Ningbo. Ou seja, uma média de 60 a mais do que o número médio de abril a agosto, de acordo com os cálculos da Bloomberg. Já segundo a VesselsValue, que monitora o tráfego de embarcações do mundo, pelo menos 350 navios porta-contêineres esperavam para fora dos portos para seguirem viagem na última semana.

Ontem, 23 de agosto, a Bloomberg anunciou que as operações de atracação no terminal haviam sido retomadas. Pelo menos cinco navios porta-contêineres conseguiram deixar, carregados, o terminal de Meishan.

Segundo levantamento realizado pelo Valor Econômico, a rota comercial Xangai-Santos, bastante popular, opera atualmente com um custo de US$ 11 mil por contêiner de 20 pés. Em agosto de 2020, o mesmo contêiner era negociado a US$ 1,5 mil. Aumento histórico, que deve se estender pelo menos até o final do primeiro trimestre de 2022, segundo especialistas em logística.

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Entenda o que está acontecendo na China

O terminal de Meishan no porto de Ningbo foi fechado na semana retrasada depois que um dos funcionários foi diagnosticado com a variante Delta. O local responde por cerca de um quarto da capacidade do porto, que tem no comércio exterior praticamente metade do foco de suas atividades. Veja reportagem completa sobre o assunto: “Mais más notícias para a cadeia de abastecimento global”.

Ningbo é o terceiro maior porto de contêineres do mundo e uma grande porta de entrada para as exportações chinesas, como móveis, produtos domésticos, brinquedos, peças automotivas, partes tecnológicas e insumos destinados especialmente ao mercado norte-americano e europeu, também influenciando o fluxo na América Latina.

Atrasos no porto de Los Angeles

O episódio levanta temores de novas filas de embarcações. Tais como as vistas quando o navio Ever Given encalhou no Canal de Suez, em março deste ano. Bloqueando, então, uma das hidrovias mais importantes para o comércio mundial.

E, claro, como obstáculos anteriores já nos mostraram, os problemas que começam nos portos asiáticos facilmente vão tomando proporções mundiais. Aparecendo mais tarde, então, como atrasos em outros continentes e, consequentemente, apontando preços mais altos para os consumidores.

O custo do transporte vindo da Europa, por exemplo, triplicou desde o ano passado. Os trajetos vindos dos Estados Unidos, maior destino dos móveis brasileiros no exterior, que vinham em queda nos últimos meses, também dispararam nas últimas semanas. A alta ocorre em meio aos congestionamentos em grandes portos americanos.

O mais importante portal de comércio dos Estados Unidos com a Ásia, aliás, já está entupido. Estima-se que 35 navios estavam ancorados aguardando espaço de atracação fora dos portos gêmeos de Los Angeles e Long Beach, na Califórnia, ao final da última segunda-feira. É o maior número de porta-contêineres em mais de seis meses. A espera média por espaço de atracação foi de 6,2 dias, em comparação com 5,7 no final de junho. Os dados são do próprio porto de Los Angeles.

Crise de semicondutores e o impacto direto na economia

No Sudeste Asiático, as manufaturas viram uma queda na atividade em julho de 2021, à medida que importantes empresas exportadoras lutavam para manter as fábricas funcionando. Embora a Indonésia, a Malásia, as Filipinas, o Vietnã e a Tailândia respondam por 5,7% das exportações globais, esses países podem causar um grande impacto em economias maiores, como os Estados Unidos e a China. Em especial quando falamos em eletrônicos.

A China importa 38% de suas máquinas de processamento de dados e 29% de seu equipamento de telecomunicações desses cinco países; enquanto os Estados Unidos dependem do bloco para a importação de metade de seus semicondutores, com impacto direto na economia do País (menos produção, emprego, renda e consumo).

Mas por que a crise dos chips é tão importante de ser levantada? Embora muitos de nós não saibamos, os semicondutores são a base das tecnologias avançadas das quais utilizamos todos os dias. De telefones celulares, laptops e máquinas de lavar até carros e aviões. Isso é destacado pelo aumento das vendas globais de semicondutores em 6,5% em 2020, de acordo com a Semiconductor Industry Association.

Escassez de chips também afeta indústria brasileira

A escassez global de semicondutores poderá cortar a produção mundial de automóveis em até 7,1 milhões de veículos este ano. Com a falta de chips devendo não se estabilizar até pelo menos o segundo trimestre do ano que vem. É o que indica relatório divulgado pelo provedor de informações britânico IHS Markit.

No Brasil, a falta de semicondutores vem afetando no mínimo 14 fábricas. Com perda de produção estimada em cerca de 240 mil veículos até o final de julho deste ano. Apesar de o mundo passar por um problema de escassez de chips, o governo federal brasileiro optou por fechar a única fábrica de semicondutores do hemisfério sul. Localizada em Porto Alegre (RS), a justifica é que tal fábrica seria muito custosa aos cofres públicos. Situação com potencial para causar grandes prejuízos ao Brasil, como o abandono de fábricas do País.

Cadeia de suprimentos para a indústria de móveis e colchões

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Carregamento de TDI

Voltando nossos olhos ao setor moveleiro, embora especialistas na área de supply chain acreditem que o fornecimento da maioria dos bens ainda seja suficiente em algumas áreas; outras, especialmente quando falamos em produtos volumosos e de baixo valor, como espumas para colchões, ferragens e componentes, poderão sofrer mais dificuldades.

Imprescindível lembrar que a recuperação triunfal do setor moveleiro a partir do início do segundo semestre do ano passado — quando o foco do consumo se virou para a casa —, pegou não só lojistas e fabricantes sem estoque, como fornecedores enfrentando sérios problemas com transportadoras que cortaram viagens depois que a demanda comercial despencou na primeira onda da pandemia ao redor do mundo.

Diversas matérias-primas e insumos ligados à indústria moveleira tiveram comercialização prejudicada. Nesse cenário, o segmento de colchões foi um dos mais afetados. Com o aço (essencial para a fabricação de molas) e as espumas flexíveis liderando a lista de aumento de preços em nosso setor. A alta do dólar e o aumento no valor do frete internacional frente à grande procura por colchões no varejo vêm impactando negativamente no preço de commodities como TDI, Poliol e até no TNT usado para ensacar as molas.

Além disso, há ainda preocupação nos segmento de painéis de madeira, têxteis, papelão e plástico, com empresas fornecedoras ouvidas por nossa reportagem já revelando estar estocando acima do usual, como uma tentativa de evitar carência de produtos para a demanda de fim de ano em nosso País.

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