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Fim da escala 6x1 e a conta que chega ao setor moveleiro

O fim da escala 6x1 coloca a cadeia moveleira diante de uma conta que ultrapassa o calendário eleitoral. Carlos Bessa analisa a responsabilidade política da mudança, seus efeitos sobre as empresas e as alternativas no Brasil e no Paraguai.

Carlos Bessa na imagem da Coluna Opinião, identificada com o selo Edição Especial.

COLUNA OPINIÃO ESPECIAL

Por Carlos Bessa

O fim da escala 6x1 coloca a cadeia moveleira diante de uma conta que ultrapassa o calendário eleitoral. Carlos Bessa analisa a responsabilidade política da mudança, seus efeitos sobre as empresas e as alternativas no Brasil e no Paraguai.

O fim da escala 6x1 exige responsabilidade com quem trabalha e com quem mantém a produção e o emprego. Considero legítimo o desejo de mais descanso, de tempo para a família e de uma vida que comporte outros compromissos além do trabalho. A minha preocupação é com a distância entre anunciar esse benefício e criar condições para que ele se sustente.

Uma mudança dessa dimensão deveria vir acompanhada de uma discussão igualmente séria sobre produtividade, investimento e transição. No setor moveleiro, essa conversa precisa alcançar a fábrica pequena, o lojista com equipe enxuta e o prestador que depende da própria capacidade de atendimento.

Na minha avaliação, o debate político deu muito mais visibilidade à promessa do que ao esforço necessário para realizá-la. É esse desequilíbrio que merece nossa atenção.

O calendário eleitoral entrou na decisão

A aprovação pelo Senado em 14 de outubro ocorreu 11 dias antes do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro. Os dois turnos legislativos foram concluídos na mesma noite, com calendário especial. Vejo um componente eleitoreiro nessa escolha de momento e de condução.

A reivindicação por mais descanso antecede a campanha e possui mérito próprio. Ainda assim, considero razoável questionar o interesse em concluir uma mudança de grande alcance tão perto da votação. Uma pauta socialmente relevante também pode ser utilizada para obter vantagem eleitoral.

O apoio atravessou governo e oposição. Portanto, minha cobrança alcança todos os que aprovaram a medida. A responsabilidade pela implementação deve ter a mesma amplitude do apoio político.

Na manhã de 15 de outubro, a proposta ainda aguardava promulgação. O texto aprovado prevê 42 horas semanais dois meses após a publicação da emenda e 40 horas um ano depois dessa primeira etapa, sem redução salarial.

Esse prazo inicial me preocupa. Entre a decisão de contratar e a presença de um profissional preparado na operação existe um processo. A compra de uma máquina também exige dinheiro, prazo de entrega e instalação. O tempo da campanha e o tempo de uma fábrica são diferentes, e a legislação precisa considerar essa diferença.

Gostaria de ver a mesma disposição política para discutir como as pequenas empresas vão atravessar essa adaptação.

A conta do fim da escala 6x1 precisa ser bem feita

Passar de 44 para 40 horas, preservando o salário mensal, aumenta em 10% o custo da hora de quem está nessa jornada. Para muitas empresas, será necessário decidir como atender à mesma demanda com menos horas individuais disponíveis.

É uma pressão concreta. Seu tamanho, porém, muda conforme a operação.

Se o trabalho afetado representar 20% do custo total de um produto, uma alta de 10% nessa parcela resultaria em cerca de 2% de aumento direto no custo total. Isso pressupõe reposição integral das horas com contratações equivalentes e ausência de ganho de produtividade. É um exemplo para organizar o raciocínio.

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Em uma empresa de margem apertada, mesmo uma variação de 2% pode exigir uma decisão difícil. Repassar ao preço depende da disposição do cliente para comprar. Absorver a diferença reduz o resultado e pode adiar um investimento. Operar com menos capacidade também tem consequências para o prazo e para a receita.

Por isso, considero inadequado tratar todas as empresas como se partissem do mesmo lugar. Uma fábrica automatizada possui possibilidades diferentes das de uma tapeçaria. Uma rede consegue distribuir equipes de uma forma que pode ser inviável para uma loja independente.

A melhoria das condições de trabalho precisa reconhecer essa diversidade para produzir resultados duradouros.

A conta percorre toda a cadeia moveleira

A adaptação ao fim da escala 6x1 ficará incompleta se cada elo olhar apenas para a própria escala. O atendimento ao consumidor depende de decisões que começam muito antes da loja.

O varejo precisa preservar o atendimento

No varejo de móveis e colchões, o desafio será manter atendimento nos horários em que o cliente quer comprar. A escolha de um colchão costuma envolver orientação e experimentação. Quando a equipe é pequena, redistribuir folgas pode deixar descoberto justamente um período importante para a venda.

Também será preciso cuidar das comissões e do acesso às oportunidades comerciais. Uma escala aparentemente equilibrada no papel pode concentrar os melhores horários nas mãos de poucos vendedores. O descanso deve ser respeitado inclusive na organização do atendimento por WhatsApp.

A indústria depende da continuidade da produção

Na indústria, o efeito pode se concentrar em um único posto. Se faltar capacidade na colagem de bordas, na costura ou na embalagem, outras etapas poderão esperar. Contratar em uma área que já tem capacidade sobrando dificilmente resolverá essa limitação.

Há ainda um ponto que parte do setor precisa observar: a fábrica que hoje distribui 44 horas entre segunda e sexta também será atingida pela redução do limite semanal. Ter o sábado livre não elimina a necessidade de rever a capacidade disponível.

Em colchões e estofados, preocupa-me especialmente a formação de profissionais para costura, tapeçaria e montagem. O treinamento exige tempo. Nos processos com cura, colagem e outros parâmetros técnicos, encurtar etapas para compensar horas seria uma resposta ruim para a qualidade e para a segurança.

Fornecedores e serviços precisam de coordenação

O fornecedor também entra nessa equação. Painéis, espumas, tecidos e ferragens precisam chegar de acordo com a programação da produção. Se cada empresa mudar seus horários isoladamente, a cadeia poderá acumular esperas, estoques e custos que ninguém considerou na primeira conta.

O mesmo vale para transporte, entrega, montagem e assistência. A loja pode manter o horário de venda e perder qualidade no serviço contratado pelo consumidor. Para quem compra, a experiência inclui receber o produto e conseguir utilizá-lo.

Essa interdependência reforça uma convicção que já trouxe à coluna: a fragmentação da cadeia custa competitividade ao setor moveleiro. A redução da jornada aumenta a necessidade de coordenação entre empresas.

O setor precisa preparar sua resposta

Defendo que cada empresa comece olhando para a capacidade que realmente utiliza. Antes de buscar uma solução cara, vale identificar onde o tempo se perde em espera por material, informação incompleta ou trabalho que precisa ser refeito.

Na fábrica, uma melhoria no abastecimento pode liberar horas hoje desperdiçadas. Na loja, organizar o atendimento pode elevar a conversão sem ampliar o horário. Na entrega, confirmar condições de acesso e agendar corretamente evita viagens improdutivas.

Essas medidas exigem gestão e precisam ser verificadas na prática. A produtividade que me interessa é a que permite entregar melhor com os recursos disponíveis, preservando segurança e qualidade.

É possível que mais descanso ajude a reduzir faltas, afastamentos e rotatividade. Esse benefício deve entrar na avaliação empresarial. Sua intensidade, contudo, dependerá de cada operação. Eu não basearia a contratação de uma equipe ou o compromisso com um cliente em um ganho que ainda não foi medido.

A tecnologia pode contribuir, desde que a compra resolva um problema identificado e caiba no caixa. Preocupa-me transformar a automação em uma resposta genérica para empresas que já encontram dificuldade para financiar capital de giro.

As negociações coletivas também terão um papel importante na organização das escalas. Instrumentos como banco de horas ajudam a lidar com oscilações, mas uma redução permanente de capacidade exige uma resposta que consiga se manter ao longo das semanas.

Entidades e poder público precisam participar

Das entidades empresariais, espero atuação próxima das empresas menores. Diagnósticos por polo, formação profissional e projetos coletivos de produtividade seriam contribuições concretas. A representação do setor ganha força quando consegue transformar sua preocupação em propostas executáveis.

Ao poder público, cabe discutir condições de financiamento e uma transição compatível com o esforço exigido. Obrigar uma adaptação e supor que o dinheiro e os profissionais aparecerão a tempo me parece uma forma insuficiente de conduzir uma política dessa importância.

O Paraguai entra na comparação dos investimentos

O fim da escala 6x1 também amplia a discussão sobre onde será realizado o próximo investimento produtivo. Considero legítimo que uma empresa brasileira compare alternativas no Paraguai, inclusive para uma operação complementar à que mantém no Brasil.

Essa comparação faz sentido quando reúne as condições completas do negócio. O regime de Maquila pode integrar o estudo, mas a viabilidade depende do produto, da implantação e da capacidade de atender ao mercado com qualidade e prazo.

A vantagem precisa aparecer no custo entregue

Um componente padronizado pode apresentar uma equação diferente da de um colchão volumoso. Para determinados móveis desmontados, a ocupação do transporte pode ajudar. Em outros casos, a distância do cliente e o custo de atravessar a fronteira podem absorver a vantagem esperada na produção.

É por isso que defendo avaliar a conta real de investir no Paraguai, considerando também os tributos no destino, as regras de origem e o capital necessário até a operação funcionar.

Há caminhos intermediários, como desenvolver um fornecedor ou testar uma família de produtos com um parceiro industrial. A decisão merece comparação com uma operação brasileira bem organizada, capaz de corrigir suas próprias perdas.

Para o varejo que atende no Brasil, comprar de outro país tampouco resolve a organização da loja, da entrega ou da montagem. São atividades que continuam próximas do consumidor e precisam de uma solução local.

Minha preocupação mais ampla é com o acúmulo de dificuldades para produzir no Brasil. Quando um novo custo se soma a financiamento difícil e incerteza de planejamento, outro país pode ganhar espaço na escolha do investimento. Esse risco deveria receber mais atenção de quem formula as regras.

O Brasil precisa continuar sendo uma opção atraente para o capital que financia sua produção. O Paraguai pode ser uma oportunidade empresarial, enquanto as condições brasileiras também merecem uma agenda séria de melhoria.

A responsabilidade continua depois da eleição

Quero que o trabalhador tenha condições de viver melhor. Também quero que a empresa consiga pagar bons salários, formar pessoas e continuar oferecendo trabalho formal. Vejo esses objetivos ligados à mesma capacidade de produzir e atender ao mercado.

A redução da jornada pode estimular mudanças úteis na gestão. Para isso, precisamos enfrentar as dificuldades de adaptação com a mesma disposição com que se anuncia o benefício.

Para o setor moveleiro, defendo uma resposta que reúna planejamento dentro das empresas e cobrança organizada por condições de implementação. A competitividade será afetada tanto pelas decisões do empresário quanto pela qualidade das políticas que cercam sua atividade.

Depois da eleição, uma pequena fábrica continuará precisando fazer a conta fechar para manter o emprego. Gostaria de ver essa responsabilidade ocupar, desde já, o mesmo espaço que a promessa de mais descanso.

Carlos Bessa é Fundador da Plataforma Setor Moveleiro e Paraguay Business Intelligence


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