Radar Setor Moveleiro10 min de leitura

Paraguai entra no radar da indústria moveleira brasileira

A indústria moveleira no Paraguai entrou no radar de empresários brasileiros após visitas técnicas e painéis sobre Maquila, REDIEX, SBDC e PTI. A experiência em Ciudad del Este ajudou a separar oportunidades reais dos pontos que ainda precisam ser avaliados antes de uma decisão de investimento.

Empresários brasileiros durante visita técnica à ABBA para avaliar oportunidades da indústria moveleira no Paraguai.

Acervo / Plataforma Setor Moveleiro / Paraguay Business Intelligence

Neste conteúdo

Visitas técnicas a empresas e áreas industriais, somadas a painéis sobre Maquila, REDIEX, SBDC e PTI, mostram oportunidades no Paraguai — mas também os pontos que precisam ser analisados antes de uma decisão de investimento.

A indústria moveleira no Paraguai começa a aparecer com mais frequência no radar de empresários brasileiros que buscam alternativas para expansão, internacionalização e aumento de competitividade.

Mas existe uma diferença importante entre ouvir falar das vantagens do país e avaliar, na prática, se elas realmente fazem sentido para determinada empresa.

Foi justamente com esse objetivo que um grupo de empresários ligados ao setor moveleiro participou, nos dias 24 e 25 de setembro, em Ciudad del Este e região, da segunda edição da programação de Inversão e Expansão no Setor Moveleiro no Paraguai.

A iniciativa, liderada pelo Paraguay Business Intelligence, com apoio da Plataforma Setor Moveleiro, foi concebida para transformar interesse em critério de decisão: observar operações reais, conhecer estruturas disponíveis, conversar diretamente com instituições e especialistas e identificar aquilo que ainda precisa ser diligenciado antes de qualquer investimento. Esse princípio já estava presente desde a concepção do programa: oferecer informação prática para que cada empresário pudesse decidir se, como e quando o Paraguai poderia fazer sentido para sua empresa.

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A pergunta, portanto, não era:

“Quais são as vantagens do Paraguai?”

Mas outra, bem mais difícil:

“Essas vantagens funcionam para o meu modelo de negócio?”

O primeiro sinal vem da operação real

A programação começou fora das salas de reunião.

No dia 24, os participantes realizaram visitas técnicas a empresas em funcionamento e tiveram contato com diferentes realidades empresariais, envolvendo organizações relacionadas ao setor moveleiro e também de outros segmentos.

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A intenção era observar como empresas efetivamente operam no Paraguai — incluindo negócios estruturados pelo modelo convencional e operações relacionadas ao Regime de Maquila.

O roteiro também passou pelo Distrito Industrial Santa Mônica, em Hernandarias, além de empresas como Tomizo, Realy e Grupo ABBA, permitindo discutir estrutura produtiva, implantação, logística, serviços locais e a experiência empresarial de quem já está instalado no país.

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Esse contato é relevante porque uma decisão industrial não pode ser construída apenas sobre uma planilha tributária.

Antes de calcular imposto, é necessário entender onde instalar uma fábrica, como chegarão os insumos, onde encontrar fornecedores, qual infraestrutura existe e como será administrada a operação.

Distrito industrial também coloca o imóvel dentro da equação

A passagem por um distrito industrial acrescentou outro componente à análise: a disponibilidade física para uma nova operação.

Os empresários puderam observar lotes industriais e conhecer possibilidades imobiliárias destinadas à implantação empresarial.

Ao mesmo tempo, a programação incorporou empreendimentos residenciais.

Pode parecer um detalhe distante da indústria moveleira, mas não é.

Quando uma empresa considera transferir executivos, técnicos ou proprietários para outro país, entram na mesma decisão questões como moradia, serviços, mobilidade e estrutura urbana.

Por isso, uma avaliação de internacionalização não termina dentro da fábrica.

A competitividade de uma operação também depende do ecossistema que existe ao redor dela.

No segundo dia, observar deu lugar a compreender

Depois da experiência de campo, o dia 25 concentrou os painéis técnicos.

A programação reuniu especialistas e instituições que ocupam diferentes posições dentro do ambiente empresarial paraguaio: SBDC Ciudad del Este, Parque Tecnológico Itaipu Paraguay, REDIEX e MB Maquila.

A lógica foi complementar.

Primeiro, entender que instrumentos existem para apoiar empresas.

Depois, conhecer o ambiente de atração de investimentos.

Por fim, entrar em uma das discussões mais importantes para uma indústria brasileira que considera produzir no Paraguai: como funciona, de fato, a Maquila.

SBDC: apoio empresarial antes e depois da decisão

A estrutura dos Centros de Desarrollo Empresarial SBDC Paraguay foi um dos pontos apresentados aos participantes.

O SBDC tem como missão oferecer assistência técnica para empreendedores e pequenas e médias empresas, trabalhando crescimento, produtividade, rentabilidade, formalização e gestão empresarial. Entre os serviços oferecidos oficialmente estão diagnóstico empresarial, assessoria personalizada, capacitação e vinculação comercial. O centro de Ciudad del Este funciona dentro do Centro de Innovación Empresarial do PTI Paraguay. Mipymes

Para uma empresa ligada à cadeia moveleira, esses instrumentos podem interessar em diferentes momentos: desenvolvimento empresarial, produtividade, capacitação, conexão com o ambiente local, internacionalização e identificação de parceiros.

Durante a programação, Liz Genez, diretora do programa SBDC Ciudad del Este, apresentou o papel dessa estrutura. O próprio PTI identifica Genez nessa função e destaca a atuação do centro em orientação, acompanhamento e fortalecimento empresarial. PTI

Essa estrutura não substitui estudos jurídicos, tributários ou industriais específicos.

Entretanto, ela ajuda a responder uma pergunta anterior:

onde uma empresa estrangeira encontra apoio para começar a entender o ambiente local?

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PTI adiciona inovação e conexão ao ambiente empresarial

A participação do Parque Tecnológico Itaipu Paraguay — PTI-PY ampliou a discussão.

Por meio de seu Centro de Innovación Empresarial, o PTI vem desenvolvendo iniciativas relacionadas a capacitação, assistência técnica, inovação e conexão empresarial.

Em 2026, por exemplo, empresas acompanhadas pelo SBDC de Ciudad del Este participaram de programas de expansão empresarial transfronteiriça e integração regional envolvendo Paraguai, Brasil e Argentina. PTI

Para a indústria moveleira, esse ponto merece atenção.

Competitividade não é resultado apenas de tributação reduzida.

Ela também depende de produtividade, tecnologia, gestão, pessoas, fornecedores, conhecimento e capacidade de integração ao ecossistema local.

A apresentação de Grace Swan Velotto ajudou a mostrar essa dimensão. Fontes oficiais recentes do PTI a identificam como líder de projetos e também vinculada à coordenação do projeto SBDC-PTI Paraguay. PTI

Em outras palavras, antes de perguntar apenas “quanto custa produzir?”, o empresário precisa perguntar também:

“Que estrutura existe para sustentar o crescimento dessa operação depois que ela for instalada?”

REDIEX funciona como porta de entrada institucional

Outro componente da análise veio da REDIEX — Red de Inversiones y Exportaciones, vinculada ao Ministério de Indústria e Comércio do Paraguai.

Noelia González, que participou da programação, consta oficialmente como Coordinadora de Zona de Frontera da REDIEX. Rediex

A instituição possui uma Diretoria de Atração de Investimentos dedicada justamente a orientar investidores estrangeiros.

Entre os serviços oficiais estão assessoria durante o processo de radicação do investimento, apresentação de oportunidades, conexão com órgãos governamentais e entidades empresariais, organização de reuniões e atendimento pós-investimento para empresas já instaladas. Rediex

Esse tipo de estrutura interessa particularmente ao industrial brasileiro porque reduz uma das dificuldades de qualquer internacionalização:

não saber por onde começar.

Ainda assim, acesso institucional não elimina a necessidade de diligência própria.

Ao contrário, ajuda a identificar quais perguntas precisam ser respondidas antes de comprometer capital.

Maquila foi o ponto em que a oportunidade encontrou a realidade operacional

Entre todos os temas discutidos, o Regime de Maquila merece atenção especial para o setor moveleiro.

A apresentação conduzida por Aldo Enrique Benítez Cabrera, da MB Maquila, aprofundou exatamente aquilo que costuma desaparecer quando a discussão sobre Paraguai é reduzida ao conhecido “imposto de 1%”.

A síntese mais importante pode ser feita em uma frase:

Maquila não é mágica.

O material técnico utilizado na programação define o regime como uma arquitetura de produção, tributação e controle aduaneiro. Ele também deixa claro que Maquila não representa, por si só, uma regra automática de origem nem livre acesso comercial ao Brasil ou a outros mercados.

Esse é um ponto particularmente relevante para a indústria de móveis.

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O 1% existe. Mas ele não conta a história inteira

O regime atual está estruturado pela Lei nº 7.547/2025 e pelo Decreto nº 5.714/2026.

O Ministério de Indústria e Comércio informa que o regime prevê tributo único de 1% sobre o maior valor entre o Valor Agregado Nacional e o valor da fatura de exportação, além de suspensão de tributos aduaneiros e outros benefícios previstos na legislação. MIC

Mas o regime exige uma operação controlável.

No caso moveleiro, isso pode significar administrar o ingresso temporário de itens como madeira, ferragens, tecidos e outros insumos, controlando consumo, coeficientes, inventário e posterior exportação do produto. O material técnico apresentado aos participantes exemplifica esse fluxo ao tratar da admissão temporária, transformação industrial e conta corrente aduaneira.

Portanto, não basta obter aprovação.

É necessário construir uma empresa capaz de operar dentro das regras.

Produzir em Maquila não significa automaticamente ter origem Mercosul

Esse talvez tenha sido um dos pontos mais importantes de toda a programação.

A Maquila paraguaia e a origem preferencial Mercosul precisam ser analisadas separadamente.

O material técnico trabalhado com o grupo alerta explicitamente para o erro de considerar que um produto “feito em Maquila” automaticamente se torna originário do Mercosul.

O próprio MIC esclarece que uma empresa pode operar em Maquila sem certificado de origem. Para acessar preferência tarifária no Mercosul, entretanto, é necessário atender às regras de origem correspondentes — que podem variar conforme a classificação do produto. MIC

No setor moveleiro, isso leva a análise a um nível muito mais profundo.

É necessário examinar produto por produto:

NCM, composição, madeira, painéis, ferragens, adesivos, tecidos, componentes importados, processo industrial realizado no Paraguai e regra de origem aplicável.

Isso muda completamente a qualidade da decisão.

Para o setor moveleiro, a pergunta não é apenas onde fabricar

A análise precisa considerar conjuntamente várias variáveis.

Entre elas estão:

matéria-prima, painéis, madeira, ferragens, mão de obra, produtividade, energia, logística, custo imobiliário, financiamento, tributação, regras de origem, mercado consumidor, gestão local e capital necessário para implantação.

O material executivo utilizado durante a programação fez exatamente essa distinção entre fatos conhecidos e pontos que ainda precisam ser diligenciados.

Enquanto dados sobre Maquila, legislação e estrutura institucional podem ser verificados, questões como disponibilidade efetiva de madeira, infraestrutura de um lote específico, enquadramento de origem de cada SKU e aprovação concreta de financiamento dependem do projeto individual de cada empresa.

Essa talvez seja uma das lições mais úteis para quem olha o Paraguai de fora:

a vantagem macroeconômica pode existir e, mesmo assim, determinado projeto não ser viável.

Os números mostram que a Maquila deixou de ser marginal

Isso não significa que o regime seja apenas uma promessa.

Segundo o Ministério de Indústria e Comércio, as exportações paraguaias realizadas por indústrias maquiladoras chegaram a US$ 1,010 bilhão entre janeiro e agosto de 2026, crescimento de 26% em relação ao mesmo período de 2025. MIC

O material executivo utilizado na programação também registrou o Brasil como destino de 60% das exportações de Maquila entre janeiro e agosto de 2026, com Mercosul respondendo por 77% do total, a partir de dados do MIC.

Esses números ajudam a explicar por que o tema passou a ocupar espaço crescente na agenda de empresários brasileiros.

Especialmente em regiões próximas à fronteira.

Mas volume exportado não substitui análise individual.

Ele apenas confirma que existe um ecossistema produtivo que merece ser observado.

O Radar identifica oportunidade — não uma resposta pronta

Depois de dois dias entre empresas, áreas industriais, empreendimentos imobiliários e especialistas, talvez o principal sinal captado pelo Radar Setor Moveleiro seja justamente este:

o Paraguai merece ser estudado pela indústria moveleira brasileira.

Isso é diferente de afirmar que todas as empresas deveriam se instalar no país.

Para algumas, o Paraguai poderá significar produção complementar.

Para outras, uma plataforma de exportação.

Algumas poderão encontrar oportunidade em serviços, distribuição ou fornecimento.

E haverá empresas para as quais, depois de colocar todas as variáveis na planilha, permanecer no Brasil continuará sendo a decisão mais racional.

Essa também é uma conclusão válida.

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Da curiosidade à diligência

A iniciativa realizada em Ciudad del Este foi liderada pelo Paraguay Business Intelligence, com apoio da Plataforma Setor Moveleiro.

Mais do que promover uma viagem empresarial, a proposta foi aproximar empresários brasileiros de informações, instituições, empresas e estruturas que permitissem avaliar o Paraguai com maior profundidade.

Esse posicionamento é coerente com a premissa que orientou a programação desde o início: não oferecer promessa fácil nem turismo empresarial, mas criar condições para que cada participante pudesse avançar ou descartar uma hipótese com mais informação.

Para o Radar Setor Moveleiro, portanto, o principal resultado não está em dizer que o Paraguai é melhor ou pior.

Está em reconhecer que ele passou a fazer parte da equação estratégica.

E, quando um novo país entra nessa equação, a decisão começa muito antes da fábrica.

Começa pela qualidade das perguntas.