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O Brasil decidiu: Lula é reeleito. Como fica o setor moveleiro?

Lula reeleito mantém a direção de políticas industriais e sociais, mas abre novos desafios para a cadeia moveleira em crédito, trabalho, tributação, comércio exterior e produtividade.

Lula reeleito presidente e os impactos para o setor moveleiro
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O Brasil decidiu: Lula é reeleito. Como fica o setor moveleiro?

A reeleição de Lula representa continuidade em várias políticas econômicas e industriais, mas isso não significa continuidade automática do desempenho do setor. Crédito, juros, reforma tributária, política industrial, habitação e mudanças nas relações de trabalho estarão entre os temas que mais podem alterar a competitividade da cadeia moveleira a partir de 2027.

Lula reeleito presidente da República significa que o setor moveleiro começará 2027 com maior previsibilidade sobre a direção geral das políticas públicas.

Mas previsibilidade não é sinônimo de facilidade.

A indústria brasileira de móveis e colchões chega ao novo mandato carregando problemas que a eleição, por si só, não resolve.

Entre janeiro e julho de 2026, a produção de móveis e colchões recuou, enquanto o faturamento nominal avançou. Esse descompasso reforça uma discussão que já vinha aparecendo nas análises recentes da cadeia: faturar mais não significa necessariamente produzir mais, vender melhor ou ganhar rentabilidade.

Os dados mais recentes divulgados pela ABIMÓVEL sobre a conjuntura da indústria moveleira mostram que o setor entrou na reta final de 2026 com sinais mistos entre produção, consumo, varejo e comércio exterior.

No mercado internacional, o quadro é igualmente desafiador. As exportações brasileiras de móveis e colchões recuaram 7,5% até julho, enquanto as importações aumentaram 41,2%. No mesmo período, as vendas aos Estados Unidos caíram 41,3%, reduzindo significativamente a participação daquele mercado nas exportações brasileiras do segmento.

Dentro das empresas, margem, produtividade, vendas e eficiência passaram a ocupar o centro das decisões.

As sucessivas edições do Termômetro Setor Moveleiro, publicadas pela Plataforma Setor Moveleiro, vêm mostrando pressão sobre preços e descontos, necessidade de proteger caixa e margem e, mais recentemente, forte concentração das prioridades empresariais em dois pontos: produzir melhor e vender melhor.

Na indústria de colchões, o diagnóstico segue direção semelhante. Os levantamentos e análises da ABICOL colocam custos operacionais, concorrência, mão de obra, rentabilidade e oscilação da demanda entre os temas que mais pressionam fabricantes.

Portanto, a pergunta depois da eleição não é apenas qual governo teremos.

É:

como as políticas do próximo mandato podem interferir justamente nesses gargalos?

O novo mandato deve reforçar a política industrial

Uma das características mais importantes de um novo governo Lula tende a ser a continuidade da política de neoindustrialização.

A estratégia adotada nos últimos anos colocou financiamento, inovação, transformação digital, sustentabilidade, produtividade e conteúdo nacional novamente no centro da política econômica.

Para a cadeia moveleira, isso pode criar oportunidades.

A indústria de móveis brasileira é formada majoritariamente por pequenas e médias empresas, muitas delas ainda com grande espaço para avançar em automação, digitalização, processos e gestão.

Ao mesmo tempo, os próprios dados setoriais mostram cautela do empresário com novos investimentos.

Esse contraste é importante.

Existe necessidade de modernização.

Mas existe também insegurança para investir.

Se linhas de financiamento, garantias e programas de produtividade conseguirem chegar efetivamente às empresas do setor, especialmente pequenas e médias, a política industrial pode ajudar a acelerar investimentos em:

automação;

máquinas e equipamentos;

softwares;

energia;

digitalização;

logística interna;

redução de desperdício;

qualificação profissional.

O ponto estratégico, portanto, não é apenas saber quanto dinheiro estará disponível.

É saber quem conseguirá acessá-lo e em quais condições.

Crédito produtivo ajuda a empresa, mas o setor continua dependendo do crédito ao consumidor

Políticas voltadas ao financiamento da indústria podem ajudar modernização, capital de giro e produtividade.

Mas o setor moveleiro possui uma segunda dependência importante:

o crédito na ponta.

Móveis e colchões são bens duráveis.

O consumidor compra parcelado.

O varejo financia estoque.

A indústria financia clientes.

Fornecedores concedem prazo para a indústria.

Toda a cadeia carrega crédito em algum ponto.

Por isso, juros elevados continuam sendo um dos maiores freios ao mercado.

O próprio IEMI – Inteligência de Mercado vem acompanhando como crédito, renda, confiança do consumidor e desempenho do varejo interferem diretamente na demanda por móveis.

Assim, ampliar crédito produtivo resolve apenas parte da equação.

Para o varejo, será decisivo observar custo do parcelamento e poder de compra.

Para a indústria, custo de capital e qualidade da carteira.

Para fornecedores, prazo e risco de crédito concedido aos clientes.

Reforma tributária entra em uma nova etapa

Uma reeleição de Lula tende a preservar a direção da reforma tributária já aprovada, em vez de reabrir seus fundamentos.

Isso traz uma vantagem importante:

previsibilidade.

Mas não significa simplicidade imediata.

A implementação de CBS e IBS continuará exigindo adaptações relevantes em:

ERP;

cadastros;

contratos;

preços;

créditos tributários;

capital de giro;

relacionamento entre fornecedores e clientes.

Para uma cadeia extensa como a moveleira, que envolve fabricantes, fornecedores, distribuidores, varejo e prestadores de serviços, essa transição pode alterar relações comerciais importantes.

A empresa que tratar a reforma apenas como assunto contábil poderá descobrir tarde demais seus efeitos sobre margem, formação de preço e fluxo de caixa.

Por isso, 2027 deve ser encarado como um ano de simulação.

Cada empresa precisa responder:

quanto imposto pago hoje?

quanto devo pagar no novo modelo?

onde acumularei crédito?

quanto capital de giro será necessário?

como meus fornecedores serão afetados?

como meus clientes serão afetados?

Jornada de trabalho pode se tornar um dos maiores pontos de atenção

Com a redução da jornada semanal e o fim da escala 6x1.

Para a cadeia moveleira, esse tema irá gerar impacto relevante.

A indústria é intensiva em mão de obra.

O varejo trabalha com horários estendidos, finais de semana e escalas.

Ao mesmo tempo, fabricantes já relatam dificuldades para contratar e reter profissionais qualificados.

Portanto, a mudança na jornada não pode ser analisada apenas pelo número de horas.

Ela deve ser convertida em:

custo por hora;

capacidade produtiva;

necessidade de contratação;

organização de turnos;

automação;

produtividade;

treinamento.

Esse ponto tem conexão direta com uma das principais dores identificadas pelas empresas nas pesquisas e levantamentos da cadeia: fazer mais com a estrutura existente.

Com a redução da jornada sem aumento proporcional de produtividade, os custos irão subir.

Se houver investimento em tecnologia, processos e gestão, parte desse impacto pode ser absorvida.

O debate, portanto, precisa sair da esfera ideológica.

Para o empresário, ele é operacional.

Habitação continua sendo um indicador antecedente de demanda

A manutenção de políticas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida pode continuar criando oportunidades para móveis e colchões.

Cada novo imóvel representa uma residência a ser ocupada.

E uma residência precisa de:

cozinha;

dormitório;

colchão;

estofado;

mesa;

cadeiras;

armários;

mobiliário funcional.

Isso não significa que cada imóvel gere automaticamente uma compra completa.

Renda, crédito e orçamento familiar continuam determinando a velocidade com que a casa será mobiliada.

Por isso, indústria e varejo deveriam acompanhar a política habitacional de maneira mais estratégica.

Não apenas pelo número de unidades.

Mas por:

localização;

metragem;

perfil de renda;

tipo de imóvel;

prazo de entrega;

capacidade de financiamento.

Esses dados podem orientar produto, preço, mix e distribuição.

Comércio exterior continuará exigindo resposta rápida

O mercado externo talvez seja uma das áreas que mais exigirão atenção do novo governo.

A queda de 41,3% nas vendas brasileiras de móveis e colchões para os Estados Unidos teve peso decisivo no resultado do setor até julho.

Mesmo permanecendo como principal destino individual, os Estados Unidos reduziram fortemente sua participação.

Ao mesmo tempo, outros mercados avançaram.

Uruguai, Argentina, Peru e Paraguai ganharam espaço entre os destinos do mobiliário brasileiro.

Isso deixa duas lições.

A primeira é que recuperar competitividade nos Estados Unidos continua importante.

A segunda é que a indústria não pode depender excessivamente de um único mercado.

Diversificação precisa se transformar em estratégia permanente.

Mas exportar para novos destinos exige:

adaptação de produto;

certificação;

logística;

distribuição;

representação comercial;

inteligência de mercado.

Não basta procurar outro país quando um mercado entra em crise.

É preciso construir presença.

Importações aumentam a pressão competitiva

Enquanto as exportações perderam ritmo, as importações de móveis e colchões cresceram fortemente.

O avanço de 41,2% registrado até julho mostra que a competição externa não acontece apenas fora do Brasil.

Ela também está entrando no mercado doméstico.

Esse movimento aumenta a importância de discutir competitividade de forma mais ampla.

Não basta reduzir custo.

Empresas brasileiras precisam competir em:

design;

prazo;

personalização;

serviço;

marca;

logística;

qualidade;

tecnologia;

experiência.

Essa discussão já aparece de forma recorrente nas análises publicadas pela Plataforma Setor Moveleiro, especialmente nos conteúdos ligados a produtividade, margem e inteligência comercial.

Sustentabilidade e digitalização devem ganhar ainda mais peso

O governo também tende a manter transformação ecológica e digitalização entre os eixos de política industrial.

Para móveis e colchões, isso pode gerar oportunidades em:

rastreabilidade;

madeira certificada;

eficiência energética;

economia circular;

reciclagem;

automação;

inteligência artificial;

digitalização.

O ponto estratégico é evitar tratar sustentabilidade e tecnologia como projetos paralelos.

Quando uma iniciativa reduz:

desperdício;

consumo de energia;

retrabalho;

tempo;

estoque;

custo;

ela deixa de ser apenas pauta ambiental ou tecnológica.

Passa a ser produtividade.

Para a indústria, o novo mandato exige transformar política industrial em produtividade

A indústria deveria entrar em 2027 com uma agenda clara.

Primeiro, mapear todas as linhas de financiamento e programas disponíveis.

Segundo, revisar produtividade por operação.

Terceiro, simular os efeitos de mudanças na jornada de trabalho.

Quarto, preparar sistemas e contratos para a reforma tributária.

Quinto, revisar a estratégia internacional.

E sexto, acompanhar habitação, crédito e renda como indicadores antecedentes de demanda.

O erro seria interpretar continuidade política como motivo para manter a empresa igual.

O mercado não está igual.

A concorrência não está igual.

O consumidor não está igual.

Para fornecedores, vender eficiência pode valer mais do que vender produto

Fornecedores podem encontrar boas oportunidades em um ambiente que incentive modernização.

Mas isso também exige mudar a abordagem comercial.

Uma máquina precisa mostrar payback.

Um software precisa demonstrar ganho de produtividade.

Uma ferragem precisa reduzir montagem ou assistência.

Um painel precisa melhorar aproveitamento.

Um químico precisa reduzir perdas.

Uma espuma ou tecido precisa combinar custo, desempenho e diferenciação.

Quanto maior a pressão sobre margem, mais o comprador perguntará:

“quanto essa solução melhora meu resultado?”

O fornecedor que responder essa pergunta deixa de ser apenas fornecedor.

Passa a fazer parte da estratégia do cliente.

Para o varejo, renda ajuda — mas conversão continua sendo responsabilidade da loja

Políticas de renda, habitação e crédito podem melhorar o ambiente de consumo.

Mas não transformam automaticamente fluxo em venda.

O próprio Termômetro Setor Moveleiro mostrou que vendas e conversão comercial estão praticamente empatadas com produção e produtividade como principal necessidade de eficiência das empresas.

Isso significa que mesmo em um cenário macroeconômico melhor continuará existindo diferença entre lojas.

Mix.

Preço.

Crédito.

Atendimento.

Prazo.

CRM.

Experiência.

Pós-venda.

Tudo isso continuará separando oportunidade de resultado.

Os primeiros 100 dias precisam responder cinco perguntas

Para a cadeia moveleira, cinco questões deveriam entrar no radar imediatamente.

1. Quais programas industriais chegarão às pequenas e médias empresas?

Não basta anunciar recursos.

É preciso observar acesso, garantias, juros e burocracia.

2. Como a reforma tributária afetará cada elo da cadeia?

Indústria, fornecedor e varejo podem sofrer impactos diferentes.

3. Como avançará a proposta de mudança na jornada de trabalho?

Formato, transição e negociação serão determinantes.

4. Qual será a resposta para o comércio exterior?

Especialmente diante da perda de espaço nos Estados Unidos.

5. Qual será o ritmo efetivo de crédito, habitação e investimento?

Esses fatores ajudarão a determinar a força da demanda.

Continuidade de governo não significa continuidade de estratégia empresarial

A reeleição de Lula tende a preservar a direção de políticas industriais, tributárias, habitacionais e sociais.

Isso reduz parte da incerteza.

Mas também deixa alguns desafios mais claros.

A reforma tributária continuará.

A política industrial continuará.

A política habitacional continuará.

A agenda de transformação ecológica continuará.

E mudanças trabalhistas poderão ganhar força.

Portanto, o empresário conhece melhor o terreno.

Isso não significa que possa dirigir olhando pelo retrovisor.

O setor continuará exigindo:

produtividade;

margem;

inteligência comercial;

investimento seletivo;

controle de caixa;

leitura de mercado.

A pergunta estratégica não deveria ser:

“Lula reeleito será bom ou ruim para o setor moveleiro?”

A pergunta mais útil é:

“como minha empresa pode aproveitar as oportunidades do próximo governo sem ignorar os riscos que continuam sobre a mesa?”

Governos ajudam a definir o ambiente.

A competitividade continua sendo construída dentro das empresas.

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