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Brasil definido, Paraguai em duas velocidades: o desafio industrial de 2027

Maquila no Paraguai em 2027 entra em uma nova fase. Aldo Benítez analisa oportunidades, riscos cambiais e os desafios para transformar o Paraguai em plataforma industrial regional.

Por Aldo Benitez

Aldo Enrique Benítez Cabrera em retrato corporativo para a Coluna Opinião da Plataforma Setor Moveleiro.
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COLUNA OPINIÃO ESPECIAL

Por Aldo Enrique Benítez Cabrera
Consultor empresarial e assessor jurídico especializado em investimentos e Regime de Maquila

A Maquila no Paraguai em 2027 entra em uma nova fase.

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva encerrou a incerteza eleitoral no Brasil e tornou mais claras algumas das variáveis que empresas brasileiras terão de considerar nos próximos anos. Ao mesmo tempo, o Paraguai chega a esse novo ciclo diante de uma combinação pouco comum: crescente interesse de investidores estrangeiros, expansão industrial e desafios internos que exigirão muito mais disciplina de gestão. O resultado eleitoral brasileiro foi oficialmente anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 26 de outubro de 2026.

Para quem acompanha diariamente projetos industriais, investidores e empresas maquiladoras, essa combinação merece atenção.

O Paraguai tem uma oportunidade importante diante de si.

Entretanto, oportunidade não significa ausência de risco.

O Brasil continuará sendo a principal referência

O Brasil continuará sendo nosso principal parceiro econômico, nosso maior mercado regional e uma referência inevitável para qualquer análise industrial feita no Paraguai.

Por isso, mudanças relevantes na estrutura de custos brasileira repercutem diretamente deste lado da fronteira.

A reforma tributária, a redução progressiva da jornada máxima de trabalho e a pressão permanente por produtividade obrigarão muitas empresas brasileiras a rever custos, processos e localização de determinadas etapas produtivas.

Nesse contexto, a discussão sobre o fim da escala 6x1 também amplia o debate sobre onde será realizado o próximo investimento produtivo. A Plataforma Setor Moveleiro já analisou esse impacto para a cadeia e mostrou que a comparação com o Paraguai tende a ganhar espaço quando empresas avaliam custo industrial, produtividade e novas alternativas de produção. Veja a análise sobre o fim da escala 6x1 e o setor moveleiro

Isso não significa que exista uma migração automática de empresas para o Paraguai.

Significa, porém, que mais empresários passarão a fazer contas.

E, quando o empresário começa a comparar custo industrial, energia, tributação, logística, mão de obra e acesso ao Mercosul, o Paraguai passa naturalmente a fazer parte da análise.

A própria Plataforma Setor Moveleiro já mostrou que a indústria moveleira brasileira começou a olhar com mais atenção para o país depois de visitas técnicas, discussões sobre Maquila e análises de viabilidade industrial. Leia: Paraguai entra no radar da indústria moveleira brasileira

Maquila não é uma solução mágica

Nesse cenário, o Regime de Maquila ocupa posição central.

A nova legislação paraguaia consolidou um regime estruturado para operações industriais e de serviços voltadas à exportação.

A Lei nº 7.547/2025 substituiu a legislação anterior do regime, e o Decreto nº 5.714/2026 regulamentou a nova estrutura. O marco atual contempla Maquila de bens, Maquila de serviços e modalidades operacionais específicas.

O conhecido tributo único de 1% continua sendo um dos seus principais atrativos.

No entanto, reduzir toda a discussão a esse número seria um erro.

Uma operação maquiladora precisa ser desenhada corretamente.

É necessário compreender o fluxo de importação de insumos, transformação, exportação, controle aduaneiro, valor agregado, contratos e regras de origem.

Além disso, quando o objetivo é acessar mercados do Mercosul com benefício tarifário, a empresa também precisa observar as exigências de origem aplicáveis ao produto.

Portanto, Maquila é competitividade quando existe projeto.

Sem projeto, pode virar apenas expectativa.

Esse é justamente o tipo de análise que precisa anteceder qualquer decisão de investimento: estrutura societária, segurança jurídica, operação binacional, logística, eficiência fiscal e mercado de destino devem fazer parte da mesma conta.

O movimento industrial já deixou de ser marginal

A expansão industrial paraguaia deixou de representar um movimento isolado.

A Maquila já faz parte da integração produtiva regional e ganhou relevância como instrumento de atração de investimentos e organização de operações voltadas à exportação.

Ainda assim, é importante olhar para esse crescimento com cuidado.

Nem todos os segmentos encontrarão automaticamente o mesmo modelo de sucesso.

Por isso, cada projeto precisa considerar produto, processo, logística, escala e mercado de destino.

Para a indústria moveleira, por exemplo, ainda existe muito espaço para análise e construção de modelos específicos.

O setor moveleiro precisa estudar o Paraguai com método

A indústria brasileira de móveis possui escala, conhecimento industrial, marcas consolidadas e uma cadeia de fornecedores altamente desenvolvida.

Ao mesmo tempo, o ambiente competitivo exige mais eficiência.

O IEMI projeta para 2026 crescimento moderado da indústria moveleira brasileira, com avanço de 0,5% em volume de produção e 2,8% em valores nominais. O instituto também aponta juros elevados, inflação, endividamento e baixa taxa de investimento privado como fatores de contenção. Confira a análise do IEMI sobre o setor moveleiro em 2026

Esse contexto ajuda a explicar por que o Paraguai começa a entrar na estratégia de algumas empresas.

Não necessariamente como substituição da operação brasileira.

Em muitos casos, o modelo mais interessante poderá ser complementar.

Uma empresa pode manter no Brasil desenvolvimento, marca, engenharia, distribuição e determinadas etapas de produção e utilizar o Paraguai para processos nos quais energia, mão de obra ou estrutura tributária produzam vantagem efetiva.

Em outros casos, a operação paraguaia poderá funcionar como plataforma de exportação.

E haverá situações em que, depois de realizar todas as contas, continuar produzindo integralmente no Brasil será a melhor decisão.

O ponto central é que essa decisão precisa nascer de números, e não de slogans.

A integração Brasil–Paraguai já aparece nos fluxos comerciais

A relação entre os dois países também aparece de forma concreta no comércio da cadeia moveleira.

Dados divulgados pela ABIMÓVEL mostram que o Paraguai já ocupa posição relevante entre os destinos de móveis, colchões, componentes e suprimentos brasileiros. Entre janeiro e junho de 2026, por exemplo, o país respondeu por 6,1% das exportações brasileiras de móveis e colchões acabados. Veja os dados de comércio exterior divulgados pela ABIMÓVEL

Além disso, a cadeia de suprimentos também mostra integração crescente.

Entre janeiro e maio de 2026, o Paraguai respondeu por 4% das exportações brasileiras de componentes, fornecedores e máquinas, com avanço de 34,1% sobre o período comparável. Confira o desempenho das exportações da cadeia de suprimentos

Esses números reforçam uma ideia importante: Brasil e Paraguai não precisam ser tratados apenas como concorrentes industriais.

Existe espaço para complementaridade produtiva.

O Paraguai também vive suas próprias contradições

É justamente aqui que surge aquilo que chamo de um Paraguai de duas velocidades.

De um lado, vemos investimentos industriais, novos projetos, maior interesse internacional e expansão da Maquila.

De outro, empresas exportadoras convivem com uma realidade cambial que exige atenção.

Quando o guarani se fortalece diante do dólar, a indústria exportadora recebe em uma moeda que perdeu valor relativo, enquanto parte importante de seus custos permanece denominada em moeda local.

Isso comprime margens.

Portanto, a mesma economia que atrai investimentos pode exigir uma gestão financeira muito mais sofisticada das empresas que já estão instaladas.

A vantagem tributária não elimina risco cambial.

A energia competitiva não elimina custo financeiro.

E crescimento das exportações não elimina a necessidade de proteger margem.

Câmbio precisa entrar no projeto industrial

Durante muitos anos, alguns empresários trataram câmbio como uma variável externa sobre a qual pouco poderia ser feito.

Essa postura se tornou perigosa.

Uma empresa exportadora precisa conhecer sua exposição.

Receber em dólar e pagar salários, serviços, impostos e despesas locais em guaranis cria uma relação que deve ser monitorada continuamente.

Por isso, instrumentos de proteção cambial precisam fazer parte da discussão empresarial.

O objetivo não é especular.

É proteger previsibilidade.

Um projeto industrial pode ser tecnicamente eficiente e tributariamente competitivo, mas perder parte importante de sua margem se a gestão financeira ignorar a relação entre moedas.

Em 2027, essa disciplina será ainda mais importante.

Energia será vantagem — e também responsabilidade

O Paraguai possui um ativo que poucos países conseguem oferecer: abundância de energia renovável.

Durante décadas, parte dessa energia excedente foi absorvida pelo mercado brasileiro.

Agora, porém, o crescimento industrial paraguaio, somado a novos projetos intensivos em energia, tende a elevar o consumo interno.

Isso é positivo.

Usar energia no Paraguai para gerar produção, investimento e emprego amplia o valor criado dentro do próprio país.

Entretanto, esse processo também exige planejamento de infraestrutura.

Não basta possuir energia disponível na geração.

Será preciso investir em transmissão, distribuição e qualidade do fornecimento para que a expansão industrial não encontre gargalos justamente em uma das principais vantagens competitivas nacionais.

Instituições continuam sendo parte da competitividade

Existe outro ponto que considero fundamental.

Investidor não observa apenas imposto, energia e mão de obra.

Observa previsibilidade institucional.

Uma empresa que decide instalar uma fábrica toma uma decisão para dez, quinze ou vinte anos.

Por isso, precisa acreditar que as regras permanecerão compreensíveis, que contratos serão respeitados e que o ambiente financeiro funcionará com segurança.

Nesse sentido, estabilidade tributária e segurança jurídica são ativos tão importantes quanto qualquer incentivo.

O Paraguai construiu parte importante de sua atratividade sobre esses pilares.

Preservá-los será essencial.

Para a indústria brasileira, o Paraguai deve ser analisado como plataforma

O debate brasileiro não deveria ser reduzido à pergunta:

“Vale a pena mudar para o Paraguai?”

Essa pergunta é simplista.

A questão correta é:

que papel o Paraguai pode desempenhar na estratégia industrial da minha empresa?

Pode ser produção complementar.

Pode ser exportação.

Pode ser beneficiamento.

Pode ser montagem.

Pode ser serviços.

Pode ser uma operação híbrida entre os dois países.

A resposta dependerá da estrutura de custos, da origem dos insumos, do mercado de destino, da logística, do financiamento e das exigências específicas de cada produto.

É por isso que iniciativas de aproximação entre empresários brasileiros e o ecossistema industrial paraguaio são importantes.

A Plataforma Setor Moveleiro já mostrou, em análises sobre Ciudad del Este e o ambiente de negócios paraguaio, que o caminho mais responsável é substituir o discurso fácil pela diligência. Conheça a análise da Plataforma sobre sua base em Ciudad del Este

Conhecer o país é importante.

Fazer conta é indispensável.

2027 exigirá empresas melhor administradas

Para mim, o principal desafio de 2027 não será encontrar oportunidades.

Elas estarão visíveis.

O desafio será administrar corretamente essas oportunidades.

Isso exige quatro atitudes.

Primeiro, construir orçamentos com cenários cambiais realistas.

Segundo, evitar que decisões de financiamento comprometam a competitividade operacional.

Terceiro, diversificar mercados e reduzir dependências excessivas.

E, finalmente, utilizar corretamente instrumentos como a Maquila, tratando incentivo fiscal como parte de uma estratégia industrial — e não como substituto dela.

O Paraguai tem uma oportunidade histórica — mas precisa fazer a sua parte

A nova configuração do Brasil, as mudanças nas cadeias internacionais e o crescimento da produção maquiladora colocam o Paraguai diante de uma oportunidade relevante.

Mas o maior erro seria acreditar que o jogo já está ganho.

Não está.

Precisamos preservar segurança jurídica.

Precisamos garantir estabilidade das regras.

Precisamos investir em infraestrutura.

Precisamos qualificar pessoas.

E nossas empresas precisam profissionalizar ainda mais sua gestão financeira.

Se fizermos isso, o Paraguai poderá consolidar-se não apenas como um país de custos competitivos, mas como uma verdadeira plataforma industrial regional.

E essa é uma diferença decisiva.

Porque competir apenas por custo cria oportunidades temporárias.

Competir com eficiência, estabilidade, energia, integração regional e segurança jurídica cria desenvolvimento de longo prazo.

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