O termômetro do 1º trimestre do setor moveleiro em 2026 mostra um início de ano sem um sinal claro de recuperação ampla para a cadeia B2B. A leitura predominante é de estabilidade, mas sem folga. É o que revela a nova edição do levantamento da Plataforma Setor Moveleiro, que reuniu 92 respostas entre indústrias, fornecedores, entidades, serviços e varejo.
O dado mais eloquente do período está no humor do fechamento trimestral. 51,1% dos respondentes disseram que encerraram o trimestre dentro da expectativa, enquanto 43,5% afirmaram ter ficado abaixo do esperado. Apenas 5,4% relataram desempenho acima da expectativa, com crescimento real na comparação com o mesmo período de 2025.
Esse retrato sugere um setor que segue operando, porém ainda sem margem de conforto. Não se trata de um colapso generalizado. Ao mesmo tempo, também não é um ambiente de expansão disseminada. O que aparece é um mercado em compasso defensivo, no qual preservar resultado parece tão importante quanto buscar faturamento.

O que o termômetro do 1º trimestre do setor moveleiro em 2026 revela
Quando o levantamento pergunta qual foi o principal driver de receita nos primeiros meses do ano, a resposta é clara. 54,3% apontam o lançamento de novas linhas de produtos como principal motor. Em seguida aparecem a retomada do varejo físico (22,8%), a expansão dos canais digitais e do e-commerce B2B (13%) e a exportação e internacionalização (9,8%).
Isso mostra que, na ausência de um impulso mais forte da demanda, a indústria segue recorrendo à renovação de portfólio para destravar negócios e manter relevância comercial. Em outras palavras, vender mais tem dependido menos de um mercado naturalmente aquecido e mais da capacidade das empresas de gerar novidade, reposicionar mix e estimular giro.
Por outro lado, a operação continua enfrentando um velho problema. Para 64,1% dos respondentes, o maior gargalo hoje é a escassez de mão de obra qualificada. Bem atrás aparecem, empatados com 12% cada, o custo e disponibilidade de matérias-primas, a ineficiência em processos internos de gestão e a logística e os custos de frete.
O dado reforça algo que o setor vem percebendo há algum tempo. Não basta ter produto, nem mesmo mercado potencial, se falta gente preparada para sustentar produtividade, ritmo industrial e qualidade de execução.

IA avança, mas a agenda dominante ainda é proteger margem
A pauta de tecnologia continua presente, mas de forma pragmática. O levantamento mostra que 37% das empresas estão em fase de testes ou estudo no uso de tecnologias e IA, enquanto 31,5% afirmam já ter implementado soluções reais. Do outro lado, 27,2% dizem que o tema ainda não é prioridade neste ano.
Somadas, as duas primeiras faixas indicam que 68,5% da base já estão, em algum grau, movimentando a agenda de tecnologia e IA. Portanto, a digitalização segue avançando. Ainda assim, ela não substituiu o foco imediato em eficiência e caixa. Esse movimento conversa diretamente com discussões que a própria Plataforma já vem aprofundando sobre o impacto da inteligência artificial na indústria moveleira e sobre como a tecnologia tem deixado de ser tendência para se tornar ferramenta de competitividade.
Isso fica ainda mais claro quando se observa a principal estratégia declarada para 2026. A maioria, 53,3%, afirma estar concentrada em redução de custos e proteção de margem. Depois aparecem expansão geográfica (21,7%), investimento mais pesado em marketing e branding (13%) e uma faixa de 12% que ainda se declara em fase de estudo.
Em outras palavras, o setor até olha para crescimento, tecnologia e novos mercados. No entanto, a prioridade do momento ainda é defender rentabilidade. Essa leitura está alinhada com outras análises recentes publicadas pela Plataforma, como o conteúdo sobre margem, caixa e o grande reajuste no ecossistema B2B moveleiro.
Há, inclusive, uma visão moderada sobre a integração com países vizinhos, como o Paraguai. Para 50%, esse movimento tem potencial médio, ligado mais ao comércio pontual. Outros 15,2% enxergam alto potencial, enquanto 34,8% o consideram de baixo impacto ou irrelevante para seus negócios neste momento. Esse tema também se conecta a discussões já desenvolvidas no portal sobre reforma tributária, competitividade e Paraguai.

Custos seguem pressionando, mas nem todos conseguiram repassar
No campo dos custos, o levantamento traz uma das combinações mais sensíveis da rodada. Nos últimos três meses, 52,2% disseram ter sentido impacto moderado, entre 3% e 7%, no custo de produção provocado por reajustes de matérias-primas. Outros 26,1% relataram impacto alto, acima de 7%. Ou seja: 78,3% da amostra percebeu pressão relevante.
Ainda assim, quando questionadas sobre o reajuste médio aplicado em 2026, 35,9% disseram não ter aplicado nenhum aumento. Na sequência aparecem reajustes de 4,1% a 6% (22,8%) e de 6,1% a 8% (14,1%)
Esse descompasso entre custo pressionado e repasse ainda contido ajuda a explicar o peso que a margem ganhou na estratégia empresarial. A conta está mais difícil, e parte relevante do setor ainda não conseguiu recompor preço na mesma velocidade em que seus insumos subiram.
Não por acaso, as principais medidas de redução de custos projetadas para 2026 são otimização de processos (35,9%) e redução de despesas gerais (33,7%). Depois vêm investimento em tecnologia e automação (14,1%) e negociação com fornecedores (10,9%). O corte puro de pessoal aparece com peso bem menor, em 3,3% das respostas.

Feiras seguem relevantes, mas com seletividade crescente
As feiras continuam importantes, mas o comportamento da base indica um uso mais criterioso desses eventos. Entre as feiras já realizadas em 2026, a maior participação dos respondentes foi registrada na Yes São Paulo (44,6%) e na Movelpar (41,3%). Depois aparecem Abimad (21,7%) e Femur (17,4%).
Entre quem participou, a percepção geral é positiva, com predominância das avaliações “Bom” e “Excelente”, ainda que sem um entusiasmo uniforme. No segundo semestre, as presenças já confirmadas se concentram em Movelsul (35,9%) e Formobile (32,6%).
O objetivo principal nessas próximas feiras se divide entre fortalecimento de marca (26,1%), acompanhamento de concorrência e tendências (23,9%) e abertura de novos mercados (23,9%). Já o lançamento de novos produtos aparece com 17,4%.
Mas talvez o dado mais revelador esteja na estratégia declarada para participação em feiras em 2026. 39,1% pretendem participar seletivamente, 28,3% querem manter participação, 16,3% planejam reduzir, e 15,2% dizem que não participarão. Apenas 1,1% fala em ampliar presença.
Portanto, a feira não perdeu valor. Porém, ela deixou de ser uma decisão automática. O setor continua vendo esses encontros como ferramentas de marca, relacionamento e prospecção, mas agora com uma régua de retorno muito mais apertada. Nesse contexto, faz sentido relacionar a movimentação da base com discussões já presentes no portal, como o papel da Movelsul 2026 na abertura de portas para exportação e a importância de enxergar os eventos como instrumentos de estratégia, e não apenas de presença institucional.




O restante de 2026 será de cautela, embora ainda haja ambição de crescimento
O restante de 2026 é lido com cautela. Sobre a economia brasileira para o setor moveleiro, 38% acreditam em estabilidade, 35,9% enxergam que pode piorar um pouco, e 9,8% projetam piora significativa. Apenas 16,3% falam em melhora.
Ao mesmo tempo, a expectativa para matérias-primas é quase unânime. 53,3% acreditam que os preços aumentarão significativamente e 44,6% que aumentarão um pouco. Só 2,2% apostam em estabilidade.
Ainda assim, o setor não abandonou metas de crescimento. 51,1% dos respondentes projetam crescer acima de 6% em 2026, descontada a inflação. Isso mostra que, apesar do ambiente duro, ainda existe ambição comercial. O problema é que essa ambição convive com fatores de risco relevantes. Essa dualidade conversa com o diagnóstico mais amplo já desenvolvido pela Plataforma em Horizonte 2026: perspectivas econômicas e o caminho estratégico para a cadeia B2B de móveis e colchões.
O principal limitador apontado para esse crescimento é a redução do poder de compra e a inadimplência do consumidor (27,2%). Na sequência aparecem instabilidade política e incerteza governamental (21,7%), escassez de mão de obra qualificada (18,5%) e concorrência desleal e guerra de preços (12%).
Nos comentários abertos, essa visão se repete em diferentes tons. Aparecem preocupação com carga tributária, desconforto com instabilidade, receio sobre demanda e, ao mesmo tempo, apelos por disciplina operacional, foco e fortalecimento de parcerias.


Um setor ativo, mas mais defensivo
O retrato do trimestre não mostra um setor paralisado. Mostra um setor ativo, em movimento, mas claramente mais defensivo. As empresas seguem lançando produtos, olhando tecnologia, planejando feiras e mantendo metas de crescimento. Ao mesmo tempo, operam sob forte pressão de custos, com dificuldade de repasse, escassez de mão de obra e preocupação com o ambiente econômico.
Por outro lado, independentemente dos resultados apontados pela enquete, o ambiente que se desenha para o setor já indica pressão adicional sobre os custos. Tanto o cenário nacional, marcado por incertezas econômicas e políticas, quanto o contexto internacional, influenciado pelas tensões no Golfo Pérsico, contribuem para um movimento quase inevitável de reajustes em cadeia. Informações preliminares sinalizam, no início de abril, repasses médios de 9% por parte da indústria de móveis e colchões. Ainda assim, o dado exige cautela na interpretação: em muitos casos, especialmente entre empresas que ainda não haviam reajustado seus preços em 2026, esse percentual não é suficiente para recompor integralmente a defasagem acumulada. O resultado é um setor pressionado por fatores externos sobre os quais não exerce controle direto, mas que afetam de forma concreta sua estrutura de custos. Ao mesmo tempo, esse quadro se agrava diante da perda progressiva do poder de compra do consumidor final, o que estreita ainda mais a margem de reação das empresas.
No fim, o recorte da enquete aponta menos para euforia e mais para gestão fina. Em 2026, a diferença tende a estar menos em quem simplesmente vende e mais em quem consegue vender preservando margem, eficiência e capacidade de adaptação.
