Por Carlos Bessa
Fundador da Plataforma Setor Moveleiro e Consultor Empresarial.
O ano de 2025 consolidou-se, de forma inequívoca, como o período mais transformador para a indústria moveleira brasileira nas últimas três décadas. Não estamos navegando apenas por uma oscilação de demanda ou ajuste cambial. O que presenciamos no chão de fábrica e nos balcões de negociação B2B é a materialização de uma “tempestade perfeita”: a convergência de vetores jurídicos, tributários e geopolíticos testando a resiliência do empresariado nacional.
Em meus mais de 30 anos dedicados ao setor — acompanhando desde a revolução do design até os ciclos de abertura comercial —, raras vezes vi um cenário exigir tamanha ambidestria na liderança: a capacidade de proteger o caixa presente com eficiência implacável, enquanto se investe no futuro estratégico.
O Índice de Desempenho que conduzimos aqui na Plataforma Setor Moveleiro revelou que quase metade dos decisores (46,5%) frustrou-se com o primeiro semestre. Mas este artigo não é um manifesto pessimista. É um guia de análise.
O Labirinto da Insegurança Jurídica
Para o industrial, previsibilidade é tão valioso quanto MDF ou tintas. Infelizmente, 2025 tornou-se o ano da imprevisibilidade. As discussões sobre alterações no Código Civil acenderam o alerta na CNI. Para quem opera com contratos de fornecimento de longo prazo, a “judicialização da economia” encarece o crédito e trava investimentos.
Não bastasse isso, tivemos instabilidades no setor elétrico. Para uma indústria eletrointensiva como a nossa, a tentativa de alteração de regras tarifárias sinalizou riscos que dificultam o planejamento de longo prazo, como a migração para o mercado livre. O “Custo Brasil” ganhou uma nova camada: o custo da incerteza.
A Reforma Tributária: O Divisor de Águas
Se a insegurança jurídica é o terreno pantanoso, a Reforma Tributária é a reengenharia da fundação da nossa indústria. Durante nossa cobertura do Congresso Nacional Moveleiro, debatemos exaustivamente o impacto do IVA Dual (IBS e CBS) e a necessidade de uma gestão estratégica para navegar essas mudanças.
A boa notícia? O fim da cumulatividade. Tudo o que a indústria adquire gera crédito. Porém, há uma armadilha estratégica na cadeia de suprimentos: comprar de fornecedores do Simples Nacional gerará menos crédito do que comprar de empresas do Lucro Real. Isso forçará gestores de compras a fazerem contas complexas, podendo levar a uma consolidação dos pequenos fornecedores ou à sua migração para regimes híbridos.
Além disso, temos uma “era de ouro” para a modernização: o crédito imediato na compra de máquinas (bens de capital). Quem tiver caixa e não automatizar agora, ficará obsoleto. Por outro lado, a folha de pagamento não gera crédito, o que pressiona estruturalmente pela substituição de mão de obra por automação.
| Aspecto | Modelo Antigo (ICMS/IPI/PIS/COFINS) | Novo Modelo (IBS/CBS) | Impacto B2B |
| Cumulatividade | Alta (Imposto em cascata) | Nula (Não cumulatividade plena) | Redução do custo real de produção; maior transparência. |
| Investimentos | Crédito de ativo imobilizado recuperado em 48 meses (CIAP) | Crédito imediato e integral na aquisição | Estímulo massivo à automação e renovação do parque fabril. |
| Exportação | Resíduos tributários no custo (exportar impostos) | Desoneração total (Imunidade plena) | Ganho de competitividade internacional imediato. |
| Localização | Guerra Fiscal (Incentivos regionais determinantes) | Tributação no Destino (Fim dos incentivos de produção) | Reconfiguração logística; foco em eficiência real e não fiscal. |
O Colapso do Crédito e o Varejo
A gestão B2B não ocorre no vácuo. Com a inadimplência batendo recordes históricos (mais de 80 milhões de brasileiros, segundo a Serasa), o varejo de móveis sofre. O modelo de “empurrar estoque” para o lojista com prazos longos colapsou diante da onda de Recuperações Judiciais.
A saída? Resegmentação. O mercado interno ainda pulsa em nichos específicos e no crédito direcionado (como habitação social). Mas a briga de foice no varejo massificado tornou-se um risco de solvência para a indústria.
| Elos da Cadeia | Sintomas da Crise | Impacto na Gestão B2B |
| Consumidor | 80,4 mi de negativados; Renda comprometida. | Queda abrupta na demanda no ponto de venda. |
| Varejo | Queda nas vendas (-0,5% no 3º tri); Falta de capital de giro. | Cancelamento de pedidos; Atraso nos pagamentos à indústria; Pedidos de RJ. |
| Indústria | Aumento do contas a receber em atraso; Estoques de produtos acabados. | Descasamento de fluxo de caixa; Necessidade de reduzir produção; Risco de insolvência. |
| Fornecedor | Pressão por prazos maiores pela indústria. | Risco sistêmico de crédito em toda a cadeia de suprimentos. |
O “Tarifaço” e a Geopolítica
No front externo, sofremos o golpe da tarifa de 50% sobre móveis de madeira brasileiros nos EUA. A dependência excessiva do mercado americano cobrou seu preço. Como analisei em nosso artigo anterior sobre a exportação de móveis Brasil-EUA, o risco agora é o efeito transbordamento: esse volume de móveis tentando entrar no mercado interno e canibalizando preços.
A diversificação não é mais opcional. Projetos como o Brazilian Furniture mostram caminhos na França, no Oriente Médio e no nearshoring com países vizinhos.
O Caminho das Pedras: Gestão e Tecnologia
Como superar 2025? A resposta reside na execução disciplinada de fundamentos, potencializados por tecnologia.
- Gestão Financeira “De Guerra”: Adote o Orçamento Base Zero (OBZ). Questione cada despesa. O orçamento de 2026 não pode ser o de 2025 indexado.
- Indústria 4.0 Acessível: Como mostramos em nosso guia sobre transformação digital na fábrica, a robótica colaborativa e a otimização de corte via software são vitais para reduzir o desperdício de matéria-prima cara.
- Design como Estratégia: Não venceremos a Ásia no preço, mas no valor. O design estratégico — como exemplificado no case da designer Juliana Weiss — reduz custos logísticos e encanta o cliente.
- ESG como Licença para Operar: Rastreabilidade da madeira e eficiência energética deixaram de ser pauta de ativista para se tornarem exigência comercial global.
O Grande Reajuste
Empresas que nasceram na era do amadorismo terão dificuldades imensas. Estamos vivendo o “Grande Reajuste”. A Plataforma Setor Moveleiro continuará sendo o farol a iluminar esses recifes, trazendo a informação necessária para que você tome as melhores decisões.
O futuro do móvel brasileiro existe e é brilhante, mas ele pertence, exclusivamente, aos profissionais.
Leitura Recomendada
Aprofunde-se nos temas discutidos nesta coluna com as matérias especiais da Plataforma:
- Congresso 2025: Congresso Nacional Moveleiro 2025: A Arena Estratégica Para o Futuro do Setor
- Cenário de Exportação: Exportação de móveis Brasil-EUA: análise de cenário e tarifas
- Tecnologia e Gestão: Indústria moveleira 4.0: a transformação digital começa na sua fábrica
- Estratégia de Design: Design que vende: Juliana Weiss explica como transformar tendências em ROI
Escreveu esse artigo
Carlos Bessa, o idealizador e fundador da Plataforma Setor Moveleiro, é uma figura proeminente no cenário empresarial.
Com um MBA em Gestão Estratégica de Vendas, pós-graduação em Administração de Marketing e diversos cursos, incluindo Empreendedorismo e Marketing Estratégico, acumula mais de três décadas de experiência no campo do marketing, dedicando impressionantes mais de 30 anos exclusivamente ao setor moveleiro.
Não apenas um especialista em marketing, mas também uma voz respeitada internacionalmente, Carlos Bessa ocupou o cargo de secretário-geral da IAFP (International Alliance Furniture Press).
Além disso, recentemente, ampliou sua atuação ao se tornar consultor empresarial franqueado pela Consulting Now, trazendo ainda mais conhecimento e visão estratégica ao seu repertório.
