Do projeto à produção: setor moveleiro entra em uma nova fase de transformação digital
A transformação digital do setor moveleiro avança das ferramentas para o modelo de negócio. Personalização, dados, inteligência artificial e novas expectativas do consumidor começam a mudar empresas e profissionais.

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Personalização, dados, novas tecnologias e mudanças no comportamento do consumidor começam a alterar não apenas os processos, mas a própria forma de fazer negócios no mercado de móveis
Durante os últimos anos, boa parte da transformação digital do setor moveleiro esteve associada à adoção de novas ferramentas. Softwares substituíram processos manuais, projetos passaram a ser desenvolvidos digitalmente e sistemas de gestão ganharam espaço em lojas e indústrias. Agora, porém, o movimento começa a avançar para uma etapa mais profunda: a transformação da própria forma de fazer negócios.
A mudança acontece em diferentes pontos da cadeia. O consumidor chega mais informado, espera visualizar alternativas antes de tomar uma decisão e busca soluções cada vez mais adequadas às suas necessidades. Projetistas ampliam sua participação na experiência de compra. Lojas precisam responder com rapidez sem perder capacidade de personalização. E a indústria enfrenta o desafio de absorver essa variedade mantendo previsibilidade e eficiência na produção.
Nesse cenário, a discussão sobre transformação digital deixa de estar concentrada apenas nas ferramentas utilizadas pelas empresas. Ela passa a envolver experiência de compra, modelos de operação, uso de dados, novas competências profissionais e capacidade de responder a um mercado mais dinâmico.
O que está mudando no modelo de negócio do setor moveleiro?
Uma das principais mudanças está na velocidade com que novas demandas chegam às empresas.
O consumidor dispõe de mais referências, compara soluções e chega ao atendimento com expectativas mais definidas. Ao mesmo tempo, espera participar das escolhas relacionadas ao ambiente, visualizar possibilidades e fazer ajustes antes de tomar uma decisão.
Isso coloca pressão sobre diferentes áreas do negócio. A loja precisa oferecer uma experiência comercial mais consultiva. O projetista precisa combinar conhecimento técnico com capacidade de interpretar necessidades. E a indústria precisa lidar com maior variedade sem transformar cada pedido em uma exceção operacional.
Para Jaqueline Maraschin, diretora de Marketing da Cyncly na América Latina, essa mudança precisa ser observada para além da adoção de software.
“A transformação digital não está mudando apenas as ferramentas utilizadas pelo setor. Ela também influencia expectativas, funções profissionais e a maneira como empresas se relacionam com seus clientes. Por isso, cada vez mais, tecnologia e estratégia de negócio precisam ser discutidas juntas”, afirma.

Jaqueline Maraschin, diretora de Marketing da Cyncly na América Latina
Personalização deixa de ser exceção
A demanda por personalização é um dos fatores que ajudam a explicar essa transformação.
O móvel está inserido em uma lógica de consumo na qual o cliente espera participar das decisões. Medidas, acabamentos, cores, composição dos ambientes e adequação ao orçamento criam inúmeras combinações possíveis.
Para as empresas, oferecer essa variedade traz uma equação delicada. Quanto maior o número de opções, maior tende a ser a complexidade para administrar projetos, preços, pedidos e produção.
O desafio estratégico passa a ser conciliar duas necessidades: entregar uma experiência personalizada e, ao mesmo tempo, manter uma operação capaz de trabalhar com escala e previsibilidade.
A tecnologia pode contribuir para essa equação ao reduzir tarefas repetitivas, facilitar a experimentação de alternativas e tornar determinadas etapas mais rápidas. Mas o ponto central não está apenas na ferramenta. Está na capacidade de transformar personalização em uma proposta de valor economicamente sustentável.
A experiência de compra ganha novo peso
A transformação também chega à relação entre empresas e consumidores.
Visualizar uma proposta antes da compra, comparar alternativas, testar configurações e compreender como determinada solução ficará no ambiente são possibilidades que mudaram a forma como o cliente participa do desenvolvimento do projeto.
Com isso, o projeto deixa de ter apenas uma função técnica. Ele faz parte da própria experiência comercial.
O profissional que elabora o projeto ganha importância nesse cenário. Além de desenvolver uma solução viável, participa da construção da experiência de compra, traduz necessidades e ajuda o consumidor a tomar decisões.
“Quando uma ideia se torna visual e compreensível antes da decisão de compra, a conversa com o consumidor muda. O projeto ajuda a explorar possibilidades, alinhar expectativas e dar mais segurança às escolhas”, avalia Jaqueline.
Ao mesmo tempo, essa evolução eleva o padrão de exigência. Quanto mais facilidade o consumidor encontra para visualizar e modificar suas escolhas, maior tende a ser sua expectativa por respostas rápidas e experiências mais fluidas.
O papel do projetista também se transforma
Essa nova jornada traz consequências para quem está na linha de frente do desenvolvimento dos ambientes.
Durante muito tempo, dominar tecnicamente o software e executar corretamente um projeto eram competências centrais. Elas continuam relevantes, mas começam a dividir espaço com outras habilidades.
Interpretar necessidades, apresentar alternativas, orientar escolhas e compreender as limitações comerciais e produtivas de uma solução passam a ter peso maior.
Ao mesmo tempo, automação e inteligência artificial começam a assumir determinadas atividades operacionais. Isso não elimina a atuação humana, mas pode deslocar o tempo do profissional para tarefas em que julgamento, criatividade e relacionamento fazem maior diferença.
Nesse sentido, a transformação digital também é uma transformação de competências. O debate deixa de ser apenas sobre quais ferramentas os profissionais precisarão dominar e passa a incluir qual será o valor que eles deverão entregar em uma jornada cada vez mais apoiada por tecnologia.
Dados começam a sair do papel de registro
Outra mudança importante está na maneira como as empresas podem utilizar as informações geradas no dia a dia.
Historicamente, muitos dados serviram principalmente para registrar o que já aconteceu: pedidos realizados, vendas concluídas, estoque disponível ou produção executada.
Com operações mais digitalizadas, cresce a possibilidade de utilizar essas informações para identificar padrões e apoiar decisões futuras.
Quais configurações são mais procuradas? Em quais momentos os projetos costumam sofrer mais alterações? Quanto tempo existe entre o primeiro atendimento e a venda? Quais produtos apresentam melhor desempenho? Onde surgem as maiores dificuldades durante a jornada?
Questões como essas transformam dados operacionais em inteligência de negócio.
Isso também cria uma base mais concreta para decisões sobre portfólio, processos, investimentos e experiência do consumidor. Em vez de depender apenas da percepção dos gestores, empresas podem combinar conhecimento do mercado com evidências geradas pela própria operação.
Inteligência artificial amplia possibilidades, mas também exige critério
A popularização da inteligência artificial adiciona uma nova camada a essa transformação. No setor moveleiro, a IA pode participar de atividades relacionadas à criação e visualização de ambientes, exploração de alternativas e análise de informações. Mas sua adoção também exige uma distinção importante entre novidade tecnológica e aplicação efetivamente útil para o negócio.
Nem toda atividade precisa de inteligência artificial. Em muitos casos, automação convencional, melhoria de processos ou melhor utilização dos dados disponíveis pode gerar impacto mais imediato.
Por isso, a pergunta estratégica não deveria ser simplesmente “como utilizar IA?”, mas “em quais problemas essa tecnologia pode produzir um resultado melhor?”.
Essa mudança de perspectiva tende a ganhar importância à medida que novas ferramentas chegam ao mercado. Empresas capazes de avaliar tecnologia a partir de necessidades concretas terão melhores condições de separar tendências relevantes de soluções que ainda não entregam valor proporcional ao investimento.
A indústria também precisa responder a um mercado mais dinâmico
As transformações percebidas na experiência de compra chegam inevitavelmente à produção.
Quanto maior a variedade oferecida ao consumidor, maior é o desafio de administrar essa complexidade sem comprometer custos, prazos e qualidade.
Isso coloca temas como flexibilidade produtiva, padronização, previsibilidade e circulação adequada de informações no centro da discussão.
O desafio não é produzir tudo de maneira diferente. É encontrar formas de oferecer variedade mantendo uma estrutura operacional sustentável.
Essa capacidade pode se tornar ainda mais relevante em um mercado no qual consumidores esperam soluções específicas, enquanto empresas continuam pressionadas por produtividade e rentabilidade.
Transformação digital passa a ser uma decisão de negócio
À medida que essas mudanças avançam, a transformação digital deixa de ser uma pauta restrita à área de tecnologia.
Decidir onde automatizar, como utilizar dados, quais experiências oferecer ao consumidor, quais competências desenvolver nas equipes e onde aplicar inteligência artificial envolve prioridades estratégicas.
Isso também muda a pergunta inicial. Em vez de começar por “qual tecnologia devemos adotar?”, empresas podem partir de “qual problema queremos resolver ou qual oportunidade queremos capturar?”.
A resposta será diferente para uma pequena marcenaria, uma rede de lojas ou uma grande indústria. Algumas organizações podem precisar priorizar produtividade. Outras, experiência do consumidor. Há ainda aquelas cujo principal desafio será administrar crescimento, personalização ou complexidade produtiva.
O ponto comum é que tecnologia passa a fazer cada vez menos sentido quando analisada isoladamente.
O setor moveleiro já digitalizou muitas de suas ferramentas. A próxima transformação será determinada pela maneira como empresas utilizarão essas capacidades para responder a um consumidor diferente, desenvolver novas competências, tomar melhores decisões e construir modelos de negócio mais preparados para as mudanças do mercado.
Mais do que uma corrida por novas tecnologias, trata-se de uma discussão sobre que empresa moveleira será necessária para competir nos próximos anos.


