A agenda internacional do setor moveleiro em Nankang, na China, reforçou uma mensagem estratégica para a indústria mundial: o futuro do móvel será cada vez mais definido pela cooperação entre países, pela força dos polos produtivos, pela inovação e pela capacidade de transformar informação em decisão.
Entre os dias 25 e 28 de maio de 2026, o distrito de Nankang, em Ganzhou, na província chinesa de Jiangxi, recebeu uma série de encontros ligados à World Furniture Confederation, à CAFA e à indústria moveleira global. A programação incluiu a Assembleia Geral Anual da WFC, a 27ª Assembleia Geral Anual da CAFA, a conferência sobre clusters industriais, visitas técnicas, rodada de negócios e o lançamento do projeto World-Class Furniture Manufacturing Industrial Cluster.
Nesse contexto, os discursos de Xu Xiangnan, presidente da World Furniture Confederation, presidente da CAFA e presidente da China National Furniture Association, funcionaram como uma síntese dos principais desafios e caminhos para o setor moveleiro mundial. A fala destacou a importância da cooperação internacional, da inovação, da sustentabilidade, da digitalização, do fortalecimento das cadeias produtivas e da construção de polos industriais de classe mundial.
A presença brasileira também marcou o encontro. Carlos Bessa, fundador da Plataforma Setor Moveleiro, foi o único brasileiro presente no evento, a convite da organizadora, inclusive com espaço para uma apresentacao durante a Conferencia sobre o setor moveleiro do Brasil. Sua participação reforça o papel da Plataforma como veículo de conteúdo B2B voltado à leitura estratégica do setor moveleiro global.
Além disso, a presença de Bessa em Nankang aproxima o público brasileiro de uma agenda que tende a influenciar decisões industriais, comerciais e institucionais nos próximos anos. Afinal, acompanhar China, Ásia e os grandes polos internacionais deixou de ser apenas uma pauta de interesse externo. Passou a ser parte da inteligência competitiva do setor moveleiro brasileiro.

World Furniture Confederation amplia seu papel global
Na abertura da Assembleia Geral Anual da World Furniture Confederation, Xu Xiangnan lembrou que a entidade nasceu há 19 anos, a partir do esforço conjunto de 19 membros fundadores. Desde então, a WFC cresceu e passou a reunir 51 membros, tornando-se uma plataforma de diálogo, cooperação e coordenação para a indústria moveleira global.
Segundo Xu, a WFC vem atuando como coordenadora, impulsionadora e prestadora de serviços para o setor. Essa função ganhou ainda mais relevância diante de um ambiente marcado por reestruturação das cadeias de suprimento, transformação da demanda, pressão ambiental e novas exigências de competitividade.
A mensagem central foi clara: em um mundo mais instável, nenhuma indústria nacional consegue avançar sozinha. Por isso, entidades, empresas, feiras, fóruns e plataformas internacionais passam a ter papel estratégico na construção de pontes comerciais e institucionais.
Essa leitura dialoga com a agenda de acompanhamento internacional da Plataforma Setor Moveleiro. Em análise recente, o portal destacou que o setor moveleiro mundial em 2026 será influenciado por custos, geopolítica e competitividade, com impacto direto sobre a tomada de decisão das empresas.

Reeleição de Xu Xiangnan reforça continuidade da agenda
Outro fato relevante foi a reeleição de Xu Xiangnan para seguir à frente da World Furniture Confederation. Em seu discurso de posse, ele agradeceu a confiança dos membros e afirmou que continuará trabalhando para servir à indústria moveleira mundial.
Xu defendeu uma nova etapa de desenvolvimento para o setor, baseada em mais qualidade, resiliência e sustentabilidade. Para isso, apontou três caminhos principais: cooperação aberta, inovação e medidas práticas para enfrentar os desafios de desenvolvimento. Também foi reeleita Linda Tu para os cargos que ja ocupava.
O tom da posse reforçou a continuidade de uma agenda internacional já em andamento. Essa agenda combina integração entre países, fortalecimento de marcas, inovação em design, digitalização da produção, inteligência de mercado e desenvolvimento sustentável.

Setor moveleiro global mantém resiliência
Durante sua fala, Xu Xiangnan afirmou que a indústria moveleira global tem demonstrado forte resiliência. Segundo ele, o valor anual de produção do setor permanece estável em torno de US$ 480 bilhões, enquanto o comércio internacional mostra recuperação gradual.
No entanto, o dirigente também alertou para um cenário de incertezas. A recuperação global ainda é lenta, os riscos macroeconômicos seguem elevados e as tensões comerciais continuam afetando as cadeias produtivas.
Ao citar projeções do Fundo Monetário Internacional, Xu observou que o crescimento do PIB global em 2026 deve ficar em 3,3%. Portanto, embora existam oportunidades, o ritmo de recuperação ainda exige cautela das empresas e das entidades setoriais.
Para o decisor moveleiro brasileiro, esse ponto é especialmente importante. O setor precisa olhar para o mercado global sem perder de vista sua própria realidade. Nesse sentido, o IEMI também tem apontado que o setor moveleiro tende a avançar de forma gradual em 2026, sustentado por emprego e renda, mas ainda limitado por juros altos e incertezas econômicas.
China segue como eixo central da indústria mundial
Xu Xiangnan também apresentou dados que confirmam o peso da China na indústria moveleira global. Segundo o discurso, em 2025, a produção, as exportações e o consumo de móveis da China representaram, respectivamente, 35,23%, 33,69% e 22,95% dos totais mundiais.
Esses números ajudam a explicar por que a China segue no centro das discussões internacionais sobre móveis. O país reúne escala produtiva, cadeia industrial integrada, capacidade exportadora, mercado consumidor amplo e uma estratégia crescente de inovação.
Além disso, a China vem buscando fortalecer não apenas sua capacidade industrial, mas também sua presença institucional e cultural. A China National Furniture Association, fundada em 1989, mantém relações com embaixadas, organizações setoriais e empresas multinacionais de quase 70 países.
Nos últimos anos, a entidade também promoveu ações internacionais de design e cultura, como exposições em Paris, Milão e Londres. Dessa forma, a China procura combinar manufatura, tecnologia, tradição cultural e posicionamento global.
Esse ponto reforça uma reflexão importante para o Brasil. Competitividade não se resume a preço. Ela envolve escala, eficiência, marca, design, inteligência, narrativa e presença internacional.
CAFA destaca força da Ásia e pressão sobre exportações
Na 27ª Assembleia Geral Anual da CAFA, Xu Xiangnan lembrou que a Ásia segue como a maior região produtora e exportadora de móveis do mundo. Segundo os dados apresentados, o continente responde por 52,6% da produção global e 50,3% das exportações mundiais de móveis.
Além disso, em 2025, o valor da produção moveleira asiática chegou a US$ 248,2 bilhões. O resultado ficou praticamente estável em relação ao ano anterior.
O consumo regional, por sua vez, alcançou US$ 175,8 bilhões, com crescimento de 1%. Esse desempenho mostra que a demanda interna asiática continua relevante para sustentar o setor.
No entanto, o cenário também apresenta desafios. As exportações asiáticas de móveis somaram US$ 96,7 bilhões em 2025, com queda de 1,1%.
De acordo com a análise apresentada na assembleia, esse desempenho reflete dois fatores principais. O primeiro é a menor capacidade de consumo da Europa. O segundo é o ajuste contínuo da política tarifária dos Estados Unidos.
Como consequência, países como China, Vietnã, Coreia do Sul, Tailândia, Malásia e Camboja sentiram impactos em suas exportações.
Nankang reforça a lógica dos polos industriais
Um dos pontos centrais dos encontros foi a defesa dos clusters industriais como ferramenta de desenvolvimento. Nankang foi apresentada como uma das bases mais relevantes da indústria chinesa de móveis.
A região é conhecida como a “Cidade Chinesa do Mobiliário em Madeira Maciça”. Além disso, é reconhecida pela força de sua cadeia produtiva integrada.
No discurso, Xu Xiangnan afirmou que os polos industriais são uma força essencial no processo de transformação da manufatura. Segundo ele, governos, empresas e sociedade vêm ampliando esforços para melhorar a governança desses ecossistemas.
O objetivo é elevar a eficiência no uso dos recursos industriais. Dessa forma, os clusters deixam de ser apenas concentrações produtivas e passam a atuar como plataformas de inovação, cooperação e expansão comercial.
A proposta de construir em Nankang um polo moveleiro de classe mundial reforça essa visão. O projeto busca reunir recursos internacionais, modernizar sistemas produtivos, ampliar a capacidade de fornecimento ao mercado global e criar uma base industrial avançada.
Para o decisor moveleiro brasileiro, essa mensagem é especialmente relevante. Afinal, a competitividade global não depende apenas de custo, escala ou tecnologia isolada.
Ela nasce da conexão entre fornecedores, fabricantes, instituições, feiras, inteligência de mercado, logística, design, inovação e acesso comercial.
Clusters passam a ser plataformas de inovação
Nos discursos, os clusters foram tratados como instrumentos de integração internacional. A WFC defendeu a construção de uma comunidade de polos industriais capaz de compartilhar experiências, métodos de governança, modelos de planejamento e formas de organização produtiva.
Além de Nankang, representantes de clusters de Portugal e da Romênia também foram citados como participantes da agenda. A proposta é ampliar o intercâmbio entre diferentes regiões produtoras, criando uma rede global de aprendizado e cooperação.
Essa abordagem mostra que os clusters não devem ser vistos apenas como territórios industriais. Eles também funcionam como ambientes de inovação, formação de talentos, integração de fornecedores, atração de investimentos e geração de reputação internacional.
Para o Brasil, essa é uma discussão relevante. O país possui importantes polos moveleiros regionais, mas ainda precisa ampliar a conexão entre produção, tecnologia, inteligência comercial, design, exportação e posicionamento internacional.
Inovação, design e sustentabilidade entram no centro da agenda
A inovação foi outro eixo importante dos discursos. Xu Xiangnan defendeu a criação de uma rede global de compartilhamento em design, com troca de ideias, cooperação entre países e transformação de criatividade em valor industrial.
Além disso, ele destacou a necessidade de acelerar o desenvolvimento de marcas regionais fortes e marcas globais de referência. Para isso, a promoção internacional, o intercâmbio cultural e a qualificação do design passam a ser decisivos.
A digitalização também apareceu como prioridade. A WFC pretende estimular a aplicação de inteligência artificial, big data e tecnologias inteligentes em design, produção, vendas e gestão.
Ao mesmo tempo, a sustentabilidade foi tratada como condição para o desenvolvimento de longo prazo. O discurso defendeu o uso de materiais ambientalmente responsáveis, processos de baixo carbono e modelos de economia circular.
Essa agenda conversa com debates já presentes no Brasil. O IEMI tem destacado que a indústria moveleira une inteligência de mercado e tendências globais, especialmente em um contexto de mudança no consumo, inovação e necessidade de decisões mais qualificadas.
Comércio internacional e canais digitais ganham novo peso
A WFC também defendeu o fortalecimento dos canais de comércio internacional. A proposta inclui maior integração entre feiras globais, como Xangai, Milão, Colônia e High Point.
A ideia é criar uma matriz internacional de eventos moveleiros, capaz de ampliar a exposição das empresas e facilitar conexões comerciais entre diferentes mercados.
Além disso, Xu Xiangnan citou a importância de uma rede global de comércio digital para móveis. Plataformas de e-commerce transfronteiriço, como Amazon e JD.com, foram mencionadas como possíveis parceiras para aproximar oferta e demanda.
Essa leitura é importante porque mostra uma mudança de lógica. O comércio internacional de móveis não depende apenas de feiras presenciais ou representantes locais. Cada vez mais, ele passa por dados, canais digitais, logística integrada e inteligência de mercado.
Informação e dados passam a orientar decisões
A assembleia da CAFA também reforçou a importância da informação qualificada. A entidade anunciou a reconstrução de seu site institucional e defendeu a ampliação dos canais de divulgação.
A proposta é publicar notícias do setor, demandas de cooperação, atividades de feiras e conteúdos sobre empresas e associações. Portanto, a informação passa a ser tratada como uma ferramenta de competitividade.
Esse ponto conversa diretamente com uma necessidade do setor moveleiro brasileiro: decidir com base em dados.
O Brasil Móveis 2025, elaborado pelo IEMI – Inteligência de Mercado, apresenta uma análise do setor moveleiro no Brasil. O estudo reúne informações sobre unidades fabris, produção, consumo, distribuição, emprego, parque de máquinas, investimentos, comércio exterior e perfil das empresas.
Além disso, o IEMI destaca que o levantamento analisa duas décadas do setor de móveis e colchões, oferecendo uma leitura de longo prazo sobre a evolução da indústria brasileira.
Portanto, acompanhar o que acontece na Ásia não significa apenas observar a concorrência. Significa entender como os grandes polos produtivos organizam sua inteligência setorial, sua presença internacional e sua capacidade de articulação institucional.
Federação Asiática pode se tornar Federação Ásia-Pacífico
Entre as propostas apresentadas na CAFA, uma das mais simbólicas foi a possível mudança do nome da Federação Asiática do Mobiliário para Federação Ásia-Pacífico do Mobiliário.
A intenção é ampliar o alcance da entidade. Com isso, a federação pretende aproximar associações e empresas da Ásia e da Oceania, além de fortalecer sua influência regional em uma escala mais ampla.
A proposta acompanha o avanço do Prêmio Ásia-Pacífico do Mobiliário. A iniciativa foi criada para reconhecer marcas, designers e artesãos de destaque.
Na primeira edição, foram selecionadas 34 marcas, 16 designers e 9 artesãos de 15 países e regiões. Entre eles estavam China, Japão, Coreia do Sul, Tailândia e Malásia.
Mais do que uma premiação, a iniciativa sinaliza um movimento de construção de reputação internacional para o mobiliário asiático.
Nesse ponto, há uma lição importante para outros mercados. Competitividade também se constrói com narrativa, reconhecimento, design, marca e posicionamento institucional.
Cultura também fez parte da agenda em Nankang
Além da agenda industrial, o encontro em Nankang incluiu uma experiência cultural em Gannan. A proposta reforçou como a China busca apresentar seus polos produtivos dentro de uma narrativa mais ampla, que combina território, cultura e desenvolvimento econômico.
Para quem acompanha a China também sob a ótica da viagem e da cultura, o portal Abrace o Mundo apresenta conteúdos sobre a China e sua dimensão cultural, o que ajuda a compreender o país para além de sua força industrial.

O que o Brasil deve observar
Para o setor moveleiro brasileiro, os encontros em Nankang deixam mensagens objetivas.
A primeira é que a Ásia continua sendo referência produtiva, mas também enfrenta pressões externas relevantes. A segunda é que os polos industriais serão cada vez mais decisivos na disputa por eficiência, escala e inovação.
A terceira é que entidades, feiras, dados e plataformas de conteúdo cumprem papel estratégico na conexão entre mercados.
Além disso, a agenda da WFC mostra que o futuro do setor moveleiro passa por cooperação internacional, digitalização, sustentabilidade, design, marcas fortes, formação de talentos e integração entre cadeias produtivas.
No Brasil, esse debate precisa ganhar força. A cadeia moveleira nacional enfrenta desafios relacionados a custos, juros, produtividade, exportações, tecnologia, margem e reposicionamento competitivo.
Por isso, a leitura internacional não deve ser vista como algo distante. Ela ajuda o empresário brasileiro a entender riscos, antecipar movimentos e identificar caminhos possíveis.
A presença de Carlos Bessa, fundador da Plataforma Setor Moveleiro, como único brasileiro convidado pela organizadora, abre uma ponte simbólica e editorial entre o Brasil e uma das agendas mais relevantes da indústria moveleira mundial.
Para uma cadeia produtiva que precisa lidar com custos, juros, exportações, tecnologia, design, consumo e reposicionamento internacional, acompanhar de perto esses movimentos deixou de ser opcional.
A mensagem final dos encontros é clara. O futuro do móvel será construído por quem conseguir combinar produção, cooperação, inteligência, sustentabilidade e visão global.
E essa é uma agenda que interessa diretamente ao decisor moveleiro brasileiro.
