Em entrevista à Plataforma Setor Moveleiro durante a feira, presidente da entidade aborda Projeto Comprador, tarifaço dos Estados Unidos e Canadá, Selo do Móvel, inteligência de mercado e novas formas de aproximar indústrias da representação setorial
A indústria moveleira brasileira atravessa um momento em que produzir bem já não é suficiente. A competitividade passa, cada vez mais, pela capacidade de acessar mercados, interpretar dados, responder a novas barreiras comerciais, comprovar atributos do produto e atuar de forma coordenada na defesa de interesses comuns.
Nesse contexto, cinco temas centrais evidenciaram, durante a entrevista, a amplitude da atuação da ABIMÓVEL e sua conexão direta com as demandas da indústria. Entre eles estão a geração de negócios e a internacionalização das empresas, a representação institucional diante das barreiras comerciais, a valorização do móvel brasileiro, o uso de inteligência para apoiar decisões e o fortalecimento da base associativa.
Essas agendas, portanto, ultrapassam o âmbito institucional. Na prática, elas se refletem diretamente no dia a dia das empresas, contribuindo para ampliar oportunidades, enfrentar desafios e fortalecer a competitividade da indústria brasileira de móveis.
Foi dentro desse cenário que Irineu Munhoz, presidente da ABIMÓVEL — Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário, conversou com a Plataforma Setor Moveleiro durante a Movelsul Brasil 2026. Munhoz preside a entidade na gestão 2025–2028.
Mais do que uma agenda institucional, os temas tratados na entrevista mostram questões que chegam diretamente à mesa do empresário moveleiro.
ABIMÓVEL na Movelsul 2026: compradores internacionais dentro da feira
Um dos exemplos mais concretos dessa estratégia pôde ser visto na própria Movelsul.
Por meio do Projeto Setorial Brazilian Furniture, desenvolvido pela ABIMÓVEL em parceria com a ApexBrasil, o Projeto Comprador conecta indústrias brasileiras a importadores previamente selecionados. Conheça o Projeto Comprador da ABIMÓVEL
Na Movelsul 2026, a ação conectou 75 indústrias brasileiras a 26 compradores estrangeiros de 16 países. Entre os mercados representados estavam Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Emirados Árabes Unidos, México, Paraguai, Peru e Reino Unido.
Na prática, o modelo busca reduzir uma das etapas mais desafiadoras da internacionalização: identificar e conectar-se aos compradores certos.
Em vez de deixar toda a prospecção a cargo das empresas, compradores previamente selecionados são convidados a participar de encontros estratégicos com fabricantes brasileiros. A seleção considera os perfis e os interesses comerciais envolvidos.
Dessa forma, uma feira tradicionalmente voltada à conexão entre indústria e varejo amplia seu alcance. Além disso, passa a atuar como uma importante plataforma de negócios internacionais, aproximando oferta e demanda de maneira mais qualificada e objetiva.
Essa estratégia coincide com uma leitura que a própria Plataforma Setor Moveleiro vem fazendo sobre a feira. Em conteúdo publicado antes do evento, a Plataforma mostrou como a Movelsul 2026 pode funcionar como porta de entrada para a exportação de móveis, aproximando fabricantes brasileiros do mercado internacional. Leia: Como usar a Movelsul 2026 como porta de entrada para a exportação de móveis?
Além das rodadas de negócios, a ABIMÓVEL organizou na feira uma exposição com 24 peças de empresas brasileiras de diferentes regiões. O objetivo foi apresentar a diversidade produtiva e criativa do mobiliário nacional. A iniciativa integra a estratégia de internacionalização desenvolvida pelo Brazilian Furniture. Saiba mais sobre a atuação do Brazilian Furniture na Movelsul
Em um momento de maior incerteza no comércio internacional, portanto, aproximar a indústria de novos compradores deixa de ser apenas uma ação promocional. Essa aproximação passa a fazer parte da própria gestão de risco comercial.
Tarifaço coloca diplomacia comercial no centro da agenda
Esse ponto ganha ainda mais importância diante do segundo tema da entrevista: as novas barreiras impostas às exportações brasileiras.
Nos Estados Unidos, o ambiente tarifário voltou a se deteriorar em 2026. Uma tarifa adicional de 25% passou a atingir parte relevante dos produtos brasileiros a partir de 22 de julho. Posteriormente, uma nova cobrança de 12,5% elevou para 37,5% as sobretaxas acumuladas sobre diversos móveis e colchões brasileiros sujeitos às duas medidas. Veja a análise da ABIMÓVEL sobre as sobretaxas de até 37,5%
O impacto, entretanto, já aparece nos números. Segundo balanço divulgado pela ABIMÓVEL, as vendas brasileiras de móveis para o mercado norte-americano recuaram cerca de 42% no primeiro semestre de 2026.
Esse movimento ganha ainda mais relevância quando se considera o peso histórico dos Estados Unidos nas exportações brasileiras do setor. A Plataforma Setor Moveleiro já analisou essa relação em conteúdo dedicado ao mercado norte-americano para os móveis brasileiros. Leia o panorama das exportações brasileiras de móveis para os Estados Unidos
Os Estados Unidos, contudo, não são a única frente de preocupação.
Desde 31 de julho, o Canadá aplica uma sobretaxa provisória de 25% sobre determinados armários, gabinetes de madeira e seus subcomponentes. Como o Brasil não está entre os países isentos, produtos brasileiros enquadrados nos códigos atingidos também estão sujeitos à medida. Entenda a sobretaxa canadense sobre determinados móveis de madeira
Portanto, é importante evitar uma leitura simplificada de que o problema está restrito a uma disputa comercial específica com os Estados Unidos.
O que se observa, na verdade, é um ambiente internacional no qual acesso a mercados, política comercial, origem dos produtos, sustentabilidade, rastreabilidade e defesa comercial ganham peso crescente nas decisões empresariais.
Diálogo e diplomacia em vez de isolamento
Na entrevista à Plataforma Setor Moveleiro, Munhoz enfatizou justamente a necessidade de diálogo e diplomacia como instrumentos para lidar com esse novo cenário.
Essa posição também se reflete na atuação institucional da entidade. A ABIMÓVEL vem buscando contribuir de forma construtiva para o diálogo e para a construção de soluções que preservem a competitividade da indústria brasileira.
Em interlocução com o Governo Federal e representantes do USTR — United States Trade Representative, a entidade tem reforçado a importância da continuidade das tratativas diplomáticas. Ao mesmo tempo, defende medidas capazes de apoiar as empresas exportadoras diante do atual cenário de barreiras comerciais.
Entre as pautas apresentadas estão o fortalecimento dos mecanismos de apoio às exportações, como crédito e Reintegra, além de iniciativas que contribuam para reduzir impactos sobre produção, investimentos e geração de empregos. Conheça a atuação institucional apresentada pela ABIMÓVEL em Brasília
Ao mesmo tempo, a estratégia da entidade não se limita à busca pela recomposição das condições comerciais anteriores. O momento exige uma atuação mais ampla. Dessa forma, diálogo institucional, defesa dos interesses da indústria e diversificação de mercados passam a caminhar juntos.
Diversificar mercados também se torna prioridade
Em agosto, a ABIMÓVEL participou do lançamento do Plano de Diversificação de Exportações da ApexBrasil, que prevê R$ 210 milhões em ações ao longo de 12 meses.
O plano contempla 35 setores prioritários e 36 mercados, incluindo a indústria brasileira de móveis. A estratégia reúne iniciativas de inteligência comercial, adequação de produtos, certificações, participação em feiras, rodadas de negócios e desenvolvimento de novos canais comerciais. Conheça o Plano de Diversificação de Exportações apresentado pela ApexBrasil
Para o setor moveleiro, portanto, essa estratégia reforça a necessidade de avançar em duas frentes ao mesmo tempo. De um lado, é necessário preservar mercados historicamente relevantes, mantendo diálogo e presença comercial. De outro, torna-se fundamental ampliar a diversificação geográfica e conquistar novos destinos para o móvel brasileiro.
É justamente nessa combinação entre manutenção de mercados e abertura de novas fronteiras comerciais que ações como o Projeto Comprador realizado pela ABIMÓVEL na Movelsul 2026 ganham ainda maior relevância estratégica.
Afinal, aproximar empresas brasileiras de compradores internacionais qualificados permite transformar relacionamento em oportunidades concretas de negócios.
Selo do Móvel: transformar atributos em valor percebido
Outro ponto abordado por Irineu Munhoz foi o Selo do Móvel, dentro de uma discussão mais ampla sobre valorização e diferenciação do produto brasileiro.
O tema dialoga com uma agenda que a ABIMÓVEL já desenvolve em normalização, certificação, sustentabilidade e competitividade.
A entidade atua, por exemplo, em parceria com a ABNT na revisão de normas existentes e na elaboração de novos referenciais técnicos para diferentes categorias de mobiliário. O objetivo é contribuir para produtos mais seguros, funcionais, duráveis e alinhados às exigências contemporâneas dos mercados nacional e internacional. Conheça o Projeto de Normalização de Móveis da ABIMÓVEL
Além disso, certificações ambientais e de gestão vêm assumindo um papel comercial cada vez maior.
Programas como o SIMB — Programa de Sustentabilidade do Setor do Mobiliário trabalham justamente a adequação das empresas às novas exigências ambientais e de gestão, que influenciam cada vez mais as relações com mercados e compradores. Conheça o Programa SIMB
A discussão sobre um selo, portanto, precisa ser compreendida para além da comunicação visual aplicada sobre um produto.
Para a indústria B2B, mecanismos de certificação e reconhecimento podem funcionar como instrumentos de confiança. Isso ocorre principalmente quando conseguem traduzir atributos técnicos, produtivos, ambientais ou de origem em informações claras para compradores e especificadores.
A Plataforma Setor Moveleiro já analisou essa transformação ao abordar o Selo Verde Brasil e o potencial das certificações para melhorar reputação, diferenciação e acesso a mercados. Leia: Selo Verde Brasil e seus benefícios para a indústria moveleira
Assim, em mercados cada vez mais exigentes, demonstrar aquilo que existe por trás do móvel passa a fazer parte do próprio produto.
Inteligência de mercado sai do relatório e entra na decisão
Se a certificação ajuda a demonstrar valor, a informação ajuda a decidir onde esse valor pode encontrar mercado.
Esse foi o quarto eixo da conversa com Irineu Munhoz.
A ABIMÓVEL vem ampliando sua estrutura de inteligência e disponibiliza uma Plataforma de Business Intelligence desenvolvida para reunir indicadores sobre produção, vendas, exportações, importações, varejo e mercados-alvo. Conheça a Plataforma de Business Intelligence da ABIMÓVEL
A ferramenta oferece visão histórica e atualizada. Além disso, inclui recursos de previsão para os 12 meses seguintes, apoiando análises e decisões empresariais.
O ponto mais relevante para o empresário, entretanto, está no uso prático desses dados.
Uma indústria que pretende exportar pode analisar mercados antes de investir em prospecção. Já quem atua no mercado interno pode acompanhar produção, varejo, importações e comportamento dos diferentes segmentos.
Além disso, decisões sobre portfólio, capacidade produtiva e expansão podem ser confrontadas com indicadores objetivos.
A plataforma também foi estruturada para atender empresas de diferentes portes. Dessa forma, pequenos e médios negócios podem acessar informações que, tradicionalmente, exigiriam estruturas próprias de inteligência de mercado.
Essa democratização da informação é particularmente importante em um setor formado por milhares de pequenos e médios fabricantes.
Afinal, grandes companhias normalmente contam com departamentos próprios de pesquisa, planejamento e comércio exterior. Para empresas menores, por outro lado, o acesso coletivo à inteligência pode ajudar a reduzir uma importante assimetria competitiva.
Associativismo precisa caber em diferentes tamanhos de empresa
É justamente nesse ponto que a entrevista chega ao quinto tema: o fortalecimento do associativismo.
Munhoz apresentou uma proposta em estudo para ampliar e diversificar a base associativa da ABIMÓVEL, criando formatos capazes de aproximar empresas de diferentes portes, perfis e estágios de desenvolvimento.
Entre as possibilidades está o Associado Júnior, concebido como uma porta de entrada para empresas que desejam se aproximar do ambiente associativo e, gradualmente, ampliar sua participação.
A ideia parte de uma premissa estratégica: uma entidade nacional se fortalece não apenas pela representatividade das maiores empresas, mas também pela capacidade de refletir a diversidade e a realidade da cadeia moveleira.
Isso significa criar caminhos para aproximar indústrias consolidadas e com presença internacional, mas também empresas menores que ainda estão estruturando seus processos de gestão, inovação, inteligência comercial e internacionalização.
Consequentemente, ampliar essa conexão também significa ampliar a capacidade de representação, articulação e construção de soluções para o setor.
Esse movimento pode ser observado em outros projetos conduzidos pela ABIMÓVEL.
O PDCIMob — Projeto de Desenvolvimento, Competitividade e Integração da Indústria do Mobiliário, desenvolvido em parceria com o Sebrae, é direcionado justamente ao fortalecimento da competitividade, produtividade e integração de micro e pequenos negócios da cadeia do mobiliário. Conheça o trabalho do PDCIMob com micro e pequenas indústrias moveleiras
Portanto, ampliar as possibilidades de associação pode significar mais do que aumentar o quadro de associados.
Pode significar, sobretudo, construir uma base empresarial mais conectada à informação, à representação institucional, aos projetos de qualificação e às oportunidades comerciais.
A agenda da entidade começa a se aproximar da agenda da empresa
Os cinco assuntos tratados na entrevista de Irineu Munhoz estão, na verdade, conectados.
O Projeto Comprador busca gerar mercado. A atuação institucional procura defender condições de competitividade. O Selo do Móvel coloca diferenciação e confiança em discussão. A inteligência de mercado transforma informação em suporte à decisão. Por fim, a ampliação do associativismo procura fazer com que essas estruturas cheguem a um número maior de empresas.
Por isso, a ABIMÓVEL na Movelsul 2026 também oferece uma leitura sobre como o papel das entidades empresariais está mudando.
Representar continua sendo fundamental. Entretanto, em um ambiente marcado por barreiras tarifárias, transformação dos mercados, novas exigências regulatórias e necessidade permanente de dados, representar já não basta.
É preciso conectar, informar, abrir mercados, qualificar e criar instrumentos para que a empresa possa decidir melhor.
Para uma indústria brasileira do mobiliário formada por mais de 22,8 mil empresas, esse desafio ganha dimensão nacional. A ABIMÓVEL também aponta que o setor reúne mais de 287 mil empregos diretos e uma cadeia produtiva de grande capilaridade econômica.
Justamente por isso, a discussão feita em meio aos corredores da Movelsul ultrapassa os quatro dias de feira.
Ela fala sobre os caminhos que o setor terá de construir nos próximos anos.
Assista à entrevista completa com Irineu Munhoz
Quer conhecer diretamente a visão do presidente da ABIMÓVEL sobre o tarifaço, as oportunidades internacionais, o Selo do Móvel, inteligência de mercado e os novos caminhos para fortalecer o associativismo na indústria brasileira?
▶ ASSISTA À ENTREVISTA COMPLETA COM IRINEU MUNHOZ (clique aqui)
A entrevista foi realizada pela Plataforma Setor Moveleiro durante a Movelsul Brasil 2026, em Bento Gonçalves (RS).

