Quando todos tiverem IA, onde estará o diferencial?

Inteligência artificial no setor moveleiro analisando móveis e ambientes residenciais

Há pouco tempo, a discussão sobre inteligência artificial parecia concentrada em uma questão simples: quem já estava usando a tecnologia e quem ainda estava atrasado.

Essa janela, porém, está se fechando rapidamente.

A pergunta agora talvez seja outra:

Quando seus concorrentes também tiverem acesso a boas ferramentas de inteligência artificial, o que continuará sendo exclusivamente seu?

Essa questão ganhou força para nós durante o SP2B 2026 — São Paulo Beyond Business, evento de empreendedorismo, inovação, cultura e criatividade realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo. O festival reúne líderes, startups, PMEs, investidores e grandes corporações para debater o futuro dos negócios e da economia.

Projeto Mobiliando em painel do SP2B 2026

Durante o evento, participamos de discussões sobre inteligência artificial, inovação, empreendedorismo, criatividade, futuro do trabalho e saúde mental. Além disso, não estivemos ali apenas como espectadores. O Projeto Mobiliando também participou do Builder Stage para discutir novos negócios e implementação, levando ao evento a perspectiva de quem trabalha diretamente com primeiro imóvel, moradia compacta e a realidade do consumidor brasileiro.

Essa discussão também encontra eco no próprio mercado moveleiro. Em levantamento publicado pela Plataforma Setor Moveleiro sobre a adoção de IA e tecnologia na indústria moveleira em 2026, o setor já aparece em transição entre estudos, testes e aplicações práticas. Portanto, a questão deixa gradualmente de ser apenas quem usa IA e passa a ser como cada empresa transforma a tecnologia em vantagem real.

Inteligência artificial no setor moveleiro: da tecnologia ao valor real

Entre os encontros que mais nos provocaram esteve a conversa de Pedro Bial com Ricardo Guerra, CIO do Itaú Unibanco, e Gabriele Zuccarelli, sócio da Bain & Company. O painel do SP2B reuniu os executivos para uma conversa sobre inovação.

Não foi uma discussão sobre simplesmente colocar IA dentro das empresas.

Ricardo Guerra resumiu posteriormente sua visão de forma bastante clara: a discussão mais interessante não está na tecnologia em si, mas em como transformá-la em valor real para pessoas e negócios. Para ele, a IA permite construir experiências mais individualizadas, contextualizadas e úteis e, no caso do banco, avançar de uma relação predominantemente transacional para uma relação mais consultiva, capaz de compreender contexto e apoiar decisões.

Esse raciocínio é especialmente relevante para o varejo moveleiro. Afinal, investir em tecnologia sem relacioná-la a um problema concreto tende a limitar o retorno. É a mesma lógica discutida em uma análise da Plataforma Setor Moveleiro sobre transformação digital e geração de ROI na indústria e no varejo: a ferramenta precisa estar conectada à prioridade real do negócio.

Assim, a mudança de raciocínio pode ser resumida da seguinte forma.

De: “Qual produto você quer comprar?”

Para: “Qual problema você está tentando resolver?”

Pedro Bial, Ricardo Guera e Gabriele Zuccarelli no SP2B

Da busca por um produto à compreensão de uma necessidade

Gabriele trouxe essa discussão para muito perto do varejo. E havia uma razão para isso: ele participou, pela Bain, do desenvolvimento da nova experiência de AI Commerce da Lu, do Magalu, criada para atuar como uma assistente inteligente de compras ao longo da jornada do consumidor.

No SP2B, ao falar sobre esse novo modelo de relacionamento, ele usou justamente um exemplo próximo do nosso universo: a busca por um sofá.

Aquilo imediatamente despertou nossa curiosidade. Afinal, trabalhamos todos os dias com móveis, arquitetura e consumidores mobiliando o primeiro imóvel.

Então resolvemos fazer o caminho mais simples:

Fomos conversar com a Lu sobre uma sala pequena.

O que acontece quando o consumidor pede ajuda para escolher um móvel?

Nosso exercício não pretendia avaliar se a Lu era uma boa ou uma má inteligência artificial. Pelo contrário.

O Magalu construiu uma experiência sofisticada. A nova experiência de AI Commerce da Lu permite que o consumidor pesquise produtos, receba recomendações e avance pela jornada de compra de forma conversacional e multimodal, utilizando texto, áudio ou imagem.

A Inteligência Artificial Ganha Voz com a Nova Lu do Magalu

A nossa pergunta, contudo, era outra:

O que acontece quando uma tecnologia muito capaz encontra um consumidor que não sabe exatamente quais informações precisa fornecer?

Quando conversamos com a Lu como arquitetas e fornecemos informações precisas sobre aquilo que buscávamos, ela conseguiu localizar produtos interessantes.

Isso faz sentido. Porém, o consumidor comum não é arquiteto.

Quem acabou de receber as chaves do primeiro apartamento, especialmente um imóvel compacto dentro do padrão Minha Casa, Minha Vida, provavelmente não chega dizendo tudo aquilo que um profissional saberia considerar.

Em geral, ele diz algo como:

“Preciso de um sofá para uma sala pequena.”

E a IA trabalha com essa informação.

No nosso segundo exercício, ela entrou justamente no universo genérico de “sofá pequeno”. Assim, começou a apresentar produtos que poderiam ser considerados compactos, mas sem conseguir, a partir daquela solicitação, compreender todas as relações envolvidas na decisão.

Nesse momento apareceu, para nós, uma questão muito maior do que o desempenho de uma ferramenta específica:

A IA pode ser excelente. Porém, ela depende da qualidade das informações que encontra e da qualidade do problema que consegue compreender.

Então surge outra pergunta:

Quem fornece essa camada?

É justamente aí que a discussão sobre inteligência artificial no setor moveleiro começa a ficar ainda mais interessante.

Nossas fichas de produto estão prontas para a era da IA?

Existe ainda um problema anterior à pergunta do consumidor: a informação disponível sobre o próprio móvel.

Grande parte das fichas técnicas foi estruturada para necessidades bastante objetivas do comércio: largura, altura, profundidade, peso, material, quantidade de volumes e montagem. Tudo isso continua sendo necessário.

Entretanto, quem trabalha diariamente com móveis percebe rapidamente que existem muitas outras características importantes para decidir se um produto serve ou não para determinada necessidade. Apesar disso, essas informações simplesmente não aparecem na maioria dos cadastros.

O próprio Magalu parece caminhar para exigir catálogos cada vez mais ricos. Em orientação aos sellers atualizada em agosto de 2026, o Universo Magalu recomenda melhorar o “Score de Catálogo”.

A provocação para a indústria moveleira, portanto, é maior:

Estamos cadastrando produtos apenas para armazenar, transportar e vender ou também para que sistemas inteligentes consigam compreendê-los e recomendá-los melhor?

Se a recomendação será cada vez mais personalizada, a qualidade da informação deixa de ser apenas uma questão de cadastro. Ela passa a fazer parte do próprio produto.

Esse pode ser um dos impactos mais relevantes da inteligência artificial no setor moveleiro. Afinal, quanto mais os sistemas forem capazes de interpretar contexto e intenção, mais importante será a qualidade do dado que descreve o produto.

Um móvel não mora sozinho

Mesmo uma ficha técnica excelente tem um limite.

Dentro de uma casa, sofá, rack, mesa, cadeiras e outros objetos não funcionam como itens independentes de um catálogo. Ao contrário, eles passam a fazer parte de uma rotina, convivem entre si e, principalmente, convivem com pessoas.

É quase uma dança: os parceiros mudam, alguém se aproxima, outro precisa se afastar, uma cadeira se movimenta, uma criança passa e o uso do espaço muda.

Sala de Estar e Jantar integrada com cozinha – MCMV

Por isso, nenhuma descrição individual de produto consegue conter, sozinha, todas essas relações.

É justamente nesse ponto que acreditamos que arquitetos e designers podem se tornar mais importantes, e não menos, dentro da indústria e do varejo na era da inteligência artificial.

Se a tecnologia consegue pesquisar, comparar e produzir alternativas em segundos, o profissional pode concentrar mais energia naquilo que exige interpretação: formular o problema, estabelecer critérios, perceber conflitos, avaliar escolhas e criar soluções.

Essa combinação entre competência tecnológica e capacidade humana também aparece em estudos globais. O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, coloca IA e big data entre as competências de crescimento mais rápido, mas também destaca pensamento criativo, resiliência e outras habilidades humanas. Da mesma forma, a Organização Internacional do Trabalho aponta que a exposição à IA generativa tende, em grande parte, a transformar o trabalho, e não simplesmente eliminá-lo.

Em outras palavras, quanto mais respostas a tecnologia conseguir produzir, mais valioso será saber reconhecer quais delas realmente resolvem o problema.

Inteligência artificial no setor moveleiro: se todos tiverem IA, de onde virá a diferença?

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Se indústrias e varejistas concorrentes utilizarem modelos semelhantes, consultarem as mesmas tendências, os mesmos marketplaces e os mesmos dados públicos, a tecnologia poderá ser extraordinária. Ainda assim, ela poderá produzir diferenciação limitada.

Então, o que muda quando uma empresa acrescenta à tecnologia aquilo que aprendeu sozinha?

Dados próprios.

Experiência acumulada.

Conhecimento específico de seus consumidores.

Testes.

Erros.

Repertório.

Informações que não estão disponíveis igualmente para todos.

Portanto, talvez o verdadeiro diferencial da próxima etapa da inteligência artificial no setor moveleiro não esteja apenas no modelo de IA utilizado.

Ele poderá estar naquilo que a empresa consegue colocar por cima da tecnologia.

Esse raciocínio reforça um ponto já discutido em outras análises sobre inteligência artificial aplicada à produção moveleira: a tecnologia, sozinha, não substitui estratégia, contexto e capacidade de decisão.

Tecnologia não substitui conhecimento proprietário do problema. Ela potencializa quem o possui.

E talvez esse seja um dos ativos mais importantes da próxima fase da inteligência artificial.

Sobre as autoras da matéria:

Ana Paula Giuffrida e Danielle Stern são arquitetas à frente do Projeto Mobiliando, iniciativa especializada em design de interiores para habitações populares.

Com mais de 20 anos de atuação no segmento, conectam moradia compacta, mobiliário acessível e comportamento de compra, atuando como laboratório e ecossistema dedicado à casa popular brasileira.

Além disso, o impacto social está em aproximar indústria, varejo e moradores de soluções mais funcionais, possíveis e aderentes à realidade de quem conquista a casa própria.

Para posicionar sua marca nesse mercado ou desenvolver produtos e soluções mais aderentes ao morador da habitação popular, entre em contato:

E-mail: info@projetomobiliando.com.br

Site: www.projetomobiliando.com.br

WhatsApp: 11 3031-3356

“Texto: Projeto Mobiliando | Edição: Carlos Bessa / Setor Moveleiro”

Veja também