Em discurso na China, Edi Snaidero defendeu mercados abertos, sustentabilidade, regras claras e apoio às pequenas e médias empresas
A fala de Edi Snaidero, presidente da Confederação Europeia das Indústrias do Mobiliário, trouxe uma mensagem importante ao setor moveleiro global.
O discurso foi realizado durante a cerimônia ligada ao lançamento do Cluster Industrial de Manufatura de Móveis de Classe Mundial, em Nankang, na China. Além disso, Snaidero também falou como membro do conselho do Salone del Mobile Milano.
A mensagem central foi clara. O futuro da indústria moveleira não será construído pelo isolamento. Pelo contrário, ele dependerá da capacidade de cooperar, inovar e competir com regras justas.
O cenário internacional reforça essa leitura. Hoje, há tensões geopolíticas, disputas tarifárias, inflação e instabilidade nas cadeias de suprimentos. Além disso, cresce a pressão por sustentabilidade.
Por isso, a fala europeia foi menos protocolar e mais estratégica. Ao mesmo tempo em que reconheceu a força industrial da China, Snaidero defendeu comércio aberto, reciprocidade e respeito à propriedade intelectual.
Ele também destacou a importância da sustentabilidade, da conformidade regulatória e do apoio às pequenas e médias empresas.
Para o público decisor B2B moveleiro brasileiro, essa discussão é relevante. Afinal, o Brasil está inserido em uma cadeia global cada vez mais interdependente.
O país importa insumos, componentes, máquinas e produtos acabados. Ao mesmo tempo, precisa ampliar sua presença internacional com móveis de maior valor agregado, design, sustentabilidade e confiabilidade produtiva.

Cooperação global não elimina disputa por competitividade
Um dos pontos centrais da apresentação foi a defesa da cooperação internacional.
Para Snaidero, a cadeia de valor do mobiliário é internacional por natureza. Isso significa que materiais, tecnologias, equipamentos, componentes e produtos cruzam fronteiras todos os dias.
Portanto, nenhum país opera sozinho.
Essa constatação ganha força em um momento de fragmentação do comércio mundial. Tarifas, barreiras não tarifárias e disputas entre grandes economias afetam o setor produtivo.
No setor moveleiro, esses movimentos podem mudar mercados de destino. Além disso, podem pressionar preços, deslocar excedentes produtivos e criar novas disputas comerciais.
Nesse sentido, essa leitura se conecta ao debate já tratado pela Plataforma Setor Moveleiro sobre os possíveis impactos da guerra econômica entre Estados Unidos e China no setor moveleiro.
Quando tensões comerciais crescem, elas influenciam custos, importações, exportações e estratégias industriais.
A mensagem europeia, portanto, não foi uma defesa ingênua da globalização. Snaidero defendeu mercados abertos, mas com regras claras.
Abertura comercial precisa vir acompanhada de reciprocidade. Também exige respeito à propriedade intelectual, conformidade regulatória e competição baseada em qualidade, inovação e sustentabilidade.
Esse ponto dialoga com preocupações já presentes no setor moveleiro brasileiro.
A concorrência asiática aumentou. Além disso, as disputas comerciais podem redirecionar exportações. Como resultado, a pressão sobre margens segue elevada.
Por esse motivo, as empresas brasileiras precisam acompanhar o cenário internacional com mais inteligência de mercado e visão estratégica.
A China como centro produtivo e o desafio da escala
A escolha de Nankang como palco dessa discussão não é casual.
A China segue como eixo central da indústria moveleira mundial. O país se destaca pela escala produtiva, pela integração das cadeias industriais e pela capacidade exportadora.
Além disso, chama atenção a velocidade de modernização tecnológica.
Esse contexto já havia sido observado pela Plataforma Setor Moveleiro na análise sobre a China e os caminhos do setor moveleiro global.
Naquele debate, a China aparece como protagonista na produção, na exportação e no consumo mundial de móveis.
O modelo de cluster como vantagem competitiva
O conceito de cluster industrial ajuda a explicar essa força. No entanto, não se trata apenas de reunir fábricas em uma mesma região.
Um cluster reúne fornecedores, tecnologia, logística, design, comércio exterior, serviços, qualificação e plataformas de promoção.
Quando bem estruturado, esse modelo reduz custos. Além disso, acelera a inovação, fortalece marcas regionais e amplia a competitividade internacional.
Para o Brasil, essa é uma reflexão necessária.
O país possui polos moveleiros relevantes. Muitos deles têm identidade produtiva, vocação regional e capacidade industrial instalada.
No entanto, a competição global exige mais do que tradição fabril. Ela exige integração da cadeia, inteligência comercial e gestão profissional.
Também exige automação, design orientado ao mercado e capacidade de leitura internacional.
A força chinesa não está apenas no preço. Ela está na coordenação entre escala, infraestrutura, cadeia de suprimentos, tecnologia e política industrial.
Esse é o ponto que mais deveria preocupar — e inspirar — o decisor moveleiro brasileiro.
Essa preocupação ganha força quando se observa a presença chinesa no comércio internacional. Segundo análise do IEMI, a China aparece como principal fornecedor de móveis ao Brasil.
Dessa forma, torna-se ainda mais importante fazer uma leitura estratégica sobre importações, competitividade e posicionamento industrial.
Sustentabilidade deixa de ser discurso
Outro eixo relevante da fala de Snaidero foi a sustentabilidade.
Na Europa, o tema deixou de ser apenas uma pauta reputacional. Agora, ele passou a fazer parte da regulação, da competitividade e da reorganização da indústria.
No setor moveleiro europeu, a agenda inclui economia circular, durabilidade, uso eficiente de recursos, ecodesign e rastreabilidade.
Além disso, também envolve redução de impactos ambientais.
Essa transição cria oportunidades de inovação. Porém, também impõe custos, novas exigências técnicas e necessidade de adaptação.
O desafio é maior para pequenas e médias empresas.
Esse movimento já aparece nas discussões internacionais de design, materiais e consumo. A Plataforma Setor Moveleiro observou essa tendência na cobertura sobre o Salone del Mobile Milano.
No evento, sustentabilidade, longevidade dos produtos e novos critérios de valor ganharam espaço central.
Sustentabilidade como passaporte competitivo
Esse ponto é fundamental para a indústria brasileira.
A sustentabilidade não deve ser vista apenas como pauta ambiental. Pelo contrário, ela também é um passaporte competitivo.
Em mercados mais maduros, produtos sem rastreabilidade podem enfrentar barreiras. O mesmo vale para produtos sem conformidade ou sem comprovação de boas práticas.
O Brasil tem ativos importantes nessa agenda. O uso da madeira, a presença de empresas certificadas e a diversidade produtiva podem ajudar.
Além disso, existe espaço para construir uma narrativa ligada a design, origem responsável, eficiência produtiva e diferenciação.
No entanto, essa vantagem só vira valor quando é organizada, comprovada e comunicada ao mercado.
Pequenas e médias empresas no centro da discussão
Snaidero também destacou o papel das pequenas e médias empresas.
Segundo ele, elas seguem como a espinha dorsal da indústria moveleira. Elas geram empregos, preservam competências produtivas e sustentam comunidades locais.
Além disso, também impulsionam inovação.
Essa observação tem forte relação com o Brasil. O setor moveleiro nacional é formado, em grande parte, por empresas de pequeno e médio porte.
Muitas estão localizadas em polos produtivos regionais. Por isso, dependem de crédito, fornecedores, mão de obra qualificada e boas relações comerciais.
Também dependem de capacidade de adaptação.
A dimensão da indústria brasileira pode ser observada em levantamentos como o Brasil Móveis 2025, do IEMI.
O estudo reúne dados sobre produção, consumo, emprego, comércio exterior, parque fabril e perfil das empresas do setor.
A Abimóvel também destaca o anuário como uma importante radiografia da indústria moveleira brasileira.
Assim, essas informações reforçam a importância de decisões empresariais baseadas em dados.
O desafio das PMEs brasileiras
O desafio é que pequenas e médias empresas são mais vulneráveis. Elas sentem mais o aumento de custos, a complexidade regulatória e as oscilações cambiais.
Além disso, também sofrem com a pressão dos importados e com as mudanças tecnológicas.
Por isso, políticas de apoio são fundamentais. O mesmo vale para acesso à informação, qualificação gerencial, crédito adequado e cooperação entre empresas.
A defesa europeia de um ambiente favorável às PMEs deve ser observada com atenção pelo Brasil.
A indústria moveleira brasileira precisa de escala coletiva. Isso é necessário mesmo quando as empresas não têm escala individual.
Nesse ponto, entidades, polos, programas setoriais, inteligência de mercado e plataformas especializadas ganham importância.
Comércio justo: o ponto sensível da nova indústria global
A parte mais estratégica do discurso está na defesa de um comércio aberto, porém justo.
Essa combinação resume uma das grandes tensões atuais do setor.
De um lado, a indústria moveleira depende de mercados internacionais. Ela também depende da importação de tecnologias, do fornecimento global e do acesso a consumidores em diferentes regiões.
De outro lado, a abertura sem critérios pode gerar riscos.
Ela pode expor empresas locais a assimetrias produtivas, subsídios, baixa reciprocidade e diferenças regulatórias.
Além disso, pode estimular uma concorrência baseada apenas em preço.
A preocupação não é isolada. O World Furniture Outlook 2026, publicado pela CSIL/World Furniture Online, aponta um cenário de elevada incerteza para o comércio internacional de móveis.
O estudo considera o impacto de políticas tarifárias, tensões comerciais e perspectivas ainda cautelosas para os próximos anos.
A CSIL Milano também analisa esse ambiente em sua leitura sobre a indústria moveleira global.
Segundo essa avaliação, o mercado mundial de móveis segue em recuperação gradual. Por isso, acompanhar dados internacionais se torna ainda mais importante.
Também é preciso observar fluxos comerciais e mudanças na demanda dos principais mercados consumidores.
O equilíbrio necessário para o Brasil
Para o Brasil, esse equilíbrio será decisivo.
O país precisa participar mais do comércio internacional. Também precisa ampliar exportações e melhorar sua presença em mercados estratégicos.
Ao mesmo tempo, deve proteger sua capacidade industrial e estimular diferenciação.
Portanto, evitar que a competição predatória desestruture cadeias locais será uma tarefa cada vez mais importante.
Nesse sentido, o acompanhamento das exportações brasileiras de móveis e colchões, monitoradas pela Abimóvel, ajuda a entender o posicionamento do Brasil no mercado internacional.
Além disso, ajuda a identificar quais segmentos demonstram maior capacidade de reação em cenários desafiadores.
Não se trata de defender fechamento de mercado.
Trata-se de defender inteligência competitiva.
O decisor moveleiro precisa acompanhar tarifas, fluxos de importação e comportamento dos grandes compradores internacionais.
Também precisa observar os movimentos da China, o reposicionamento dos Estados Unidos, a demanda europeia, as certificações exigidas e as mudanças no consumo.
O que o discurso europeu sinaliza para o Brasil
A fala de Edi Snaidero deixa mensagens práticas para o setor moveleiro brasileiro.
Em primeiro lugar, a competição global será cada vez mais sistêmica. Empresas não competem apenas contra empresas. Elas competem contra ecossistemas produtivos inteiros.
Em segundo lugar, sustentabilidade, conformidade e rastreabilidade passam a fazer parte do acesso a mercados.
Isso vale, sobretudo, para países mais exigentes.
Em terceiro lugar, pequenas e médias empresas precisarão de apoio, inteligência e cooperação. Sem isso, será mais difícil enfrentar um ambiente de maior complexidade.
Em quarto lugar, o comércio internacional seguirá como oportunidade. No entanto, ele exigirá leitura estratégica permanente.
Por fim, o Brasil precisa fortalecer sua própria narrativa industrial.
Essa narrativa deve envolver design, qualidade, sustentabilidade, flexibilidade produtiva, capacidade regional e confiabilidade.
O discurso feito na China por uma liderança europeia mostra algo importante.
O centro da agenda moveleira global não está apenas na produção. Ele está também na governança das cadeias, na confiança entre mercados e na capacidade de inovar.
Além disso, está na construção de competitividade com regras claras.
Para a indústria brasileira, a mensagem é objetiva.
Não basta observar a reorganização mundial do setor moveleiro.
É preciso interpretar, posicionar-se e agir.
