A ausência de uma normalização técnica específica para guarda-roupas no Brasil é um desafio para a padronização e para a garantia de qualidade desses produtos no mercado. Diante disso, este conteúdo apresenta o processo de construção da norma nacional, partindo de referências normativas já existentes, tanto nacionais quanto internacionais, e adaptando critérios técnicos de desempenho à realidade do setor moveleiro no País
Na primeira parte das publicações, abordamos a Norma de Sofás. Nesta edição, trataremos da Norma de Guarda-Roupas.
Considerando a inexistência de uma normalização específica para guarda-roupas e visando evitar a elaboração de uma norma a partir do zero, buscamos, inicialmente, uma norma brasileira para produtos similares em termos de funcionalidade, processo de fabricação, matérias-primas utilizadas, entre outras características, como referência. Encontramos, então, a Norma de Móveis para Cozinha (ABNT NBR 14033 – Móveis para Cozinha), publicada em 2005.
Adicionalmente, conforme mencionado nas publicações anteriores, consultamos também documentos técnicos internacionais aplicáveis a este tipo de produto e identificamos a Norma “ISO 7170 – Furniture – Storage units – Test methods for the determination of strength, durability and stability” ou “ISO 7170 – Mobiliário – Unidades de armazenamento – Métodos de ensaio para a determinação da resistência, durabilidade e estabilidade”.
Esta normalização internacional é definida como referência para mobiliários destinados ao armazenamento ou acondicionamento de objetos ou materiais, tais como roupas, utensílios de cozinha ou materiais de escritório. Ela estabelece os requisitos necessários para a elaboração de normas específicas, como é o caso dos guarda-roupas.

Assim, iniciamos a elaboração da Norma de Guarda-Roupas, tendo como base essas duas referências normativas, além de consultar outras normas da ABNT aplicáveis ao setor moveleiro, com o intuito de estudar não somente os requisitos do produto, mas também a uniformidade na estrutura, estilo e terminologia que devem ser utilizados, para que a norma em elaboração esteja alinhada com o padrão dos demais documentos técnicos da ABNT, assim como da série de documentos técnicos associados.
Uma redação idêntica deve ser usada para expressar prescrições idênticas, evitando-se o uso de termos alternativos para um mesmo conceito previamente definido. Sempre que possível, cada conceito deve ter um único termo atribuído.
No entanto, ao comparar as diferentes normas, observou-se a utilização de termos distintos para expressar os mesmos conceitos. Isso exige cuidados especiais durante a aplicação das normas, a fim de evitar problemas de compreensão e interpretações diversas. Por isso, é crucial padronizar os termos normativos no setor moveleiro, conforme as diretrizes estabelecidas pela ABNT, o que deve ser realizado em um futuro próximo.

Conforme discutido nas publicações anteriores, seguimos também a orientação da diretiva para expressar os requisitos de desempenho dos guarda-roupas, em vez de características descritivas ou de projeto.
Essa abordagem permite maior flexibilidade e inovação tecnológica em termos de matéria-prima, acessórios ou ferragens, incluindo inovações no design do produto. Podem ser incluídas características amplamente aceitas, com opções adicionais, conforme necessário, devido à legislação ou condições sociais.
Mediante essas considerações, selecionaram-se os principais requisitos da Norma ISO 7170 que caracterizam o desempenho de guarda-roupas, excluindo requisitos como os dimensionais mencionados na Norma de Móveis para Cozinha, e padronizou-se a terminologia e os ensaios ao máximo possível.
Em relação à avaliação do produto, primeiramente, é considerada a estabilidade das prateleiras e dos cabideiros, sejam móveis ou fixos, e suas resistências à deflexão.
Segue-se a avaliação dos componentes móveis do guarda-roupa, como portas e gavetas, realizando-se ensaios como a aplicação de ciclos de abertura e fechamento, aplicação de forças horizontais ou verticais, abertura e fechamento bruscos, entre outros. A estrutura do guarda-roupa também é testada com a aplicação de forças nos quatro lados e através de ensaio de quedas.

É importante observar que, ao realizar esses ensaios que avaliam os componentes como portas ou gavetas, avaliam-se também os materiais, como os painéis de madeira, ou outros acessórios, como as dobradiças no caso de portas de pivotamento vertical ou os sistemas de deslizamento para portas deslizantes.
No caso das gavetas, são analisados os sistemas de movimentação, como as corrediças. Ou seja, ao se detectar alguma não conformidade no produto ensaiado, mesmo que a normalização não especifique o tipo, esse dano é um indicativo claro de algum problema.
Dessa forma, o fabricante saberá quais providências devem ser tomadas em seu processo de fabricação, recorrendo inclusive às normas específicas de cada um dos materiais que compõem o produto.
Finalmente, os ensaios de estabilidade verificam se o mobiliário pode resistir às forças que reproduzem as diferentes condições de uso, as quais podem causar a elevação de um ou mais pontos de apoio ou levar ao seu tombamento.

Além dos requisitos mecânicos e de estabilidade, esta normalização contempla aspectos importantes de segurança quanto ao uso de vidros e espelhos, assim como de guarda-roupas de uso infantil, que foram incluídos na norma na forma de anexos.
O anexo sobre a utilização de vidros e espelhos destaca as especificações relativas à segurança e deve atender à norma ABNT NBR 7199, que especifica os requisitos para projeto, execução e aplicações de vidros na construção civil, sendo, no entanto, aplicável em alguns aspectos aos produtos mobiliários.
Como os vidros ou espelhos aplicados nos guarda-roupas estão suscetíveis a impactos, sejam eles provenientes de pessoas ou de outros objetos, foi considerada uma regra básica, extraída da ABNT NBR 7199: para alturas inferiores a 1100 mm em relação ao piso, deve-se utilizar vidros de segurança temperados ou laminados.

Para aplicações de vidro acima de 1100 mm de altura, caso os vidros sejam totalmente encaixilhados ou colados em todo o seu perímetro, vidros do tipo comum podem ser utilizados. Porém, caso não sejam totalmente encaixilhados, devem ser utilizados vidros de segurança.
Os espelhos aplicados na forma de revestimento devem ser afixados em substratos planos, com várias linhas de filetes adesivos na vertical, mesmo que fixados com parafusos, para evitar que fragmentos maiores do espelho se desprendam em caso de quebra, e de forma que todo o peso não seja suportado apenas pelas bordas, a fim de evitar o empenamento e a consequente distorção.
Por fim, os fabricantes que destinarem guarda-roupas ao uso infantil devem identificá-los corretamente, incluindo recomendações de segurança específicas nas instruções de uso, além de cumprir todos os requisitos da Norma de Guarda-Roupas.

Escreveu esse artigo
Jorge M. Kawasaki, que é engenheiro e mestre em engenharia de materiais.
Tem experiência em desenvolvimento de novos produtos em vários segmentos industriais, incluindo autopeças (velas de ignição), aeronáutica (mobiliário da aviação executiva), florestal (certificação FSC na Amazônia Oriental) e madeira e mobiliário (Instituto Senai de Tecnologia), entre outros.
Atualmente, é colaborador da Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), responsável pelo desenvolvimento do Projeto de Normalização de Móveis.
