Segurança em primeiro lugar: a responsabilidade por trás do design de móveis

Segurança em primeiro lugar: a responsabilidade por trás do design de móveis

O design de móveis vai além da estética e da funcionalidade, já que envolve uma responsabilidade com a segurança dos usuários. Acidentes causados por itens instáveis, especialmente em ambientes com crianças, evidenciam a necessidade de projetar produtos que atendam a requisitos rigorosos de estabilidade e proteção. Nesta coluna, você vai saber mais sobre a importância de incorporar normas técnicas e testes no processo de desenvolvimento, assegurando que a segurança esteja sempre em primeiro lugar no setor moveleiro

Era para ser mais uma noite comum. A mãe se despede do filho de dois anos com um beijo de boa noite. Ele já está deitado, cercado por brinquedos, num quarto aparentemente seguro. 

Horas depois, enquanto ela dorme, a criança acorda, tenta escalar uma cômoda. O móvel tomba. O corpo frágil da criança é esmagado.

Essa história real está longe de ser um caso isolado. Infelizmente, acidentes envolvendo o tombamento de móveis continuam ocorrendo em diversas partes do mundo, muitas vezes com consequências fatais. 

São tragédias silenciosas que revelam um problema: a insegurança de produtos que chegam às casas das pessoas sem atender aos requisitos básicos de estabilidade e proteção.

Segurança em primeiro lugar: a responsabilidade por trás do design de móveis

Nos Estados Unidos, a CPSC (Consumer Product Safety Commission, na sigla em inglês) é o órgão federal responsável por monitorar acidentes com produtos de consumo. 

Com base em dados alarmantes, a CPSC passou a exigir que cômodas e unidades de armazenamento de roupas cumpram padrões mais rigorosos de estabilidade. 

De acordo com o órgão, entre janeiro de 2000 e abril de 2022, foram registradas 234 mortes causadas por tombamento de unidades de armazenamento de roupas, sendo 199 dessas envolvendo crianças. 

Além disso, entre 2006 e 2021, estima-se que 84.100 lesões relacionadas a esse tipo de móvel foram atendidas em prontos-socorros nos Estados Unidos.

Em dezembro de 2022, o Congresso americano aprovou o Sturdy Act (Stop Tip-Overs of Unstable, Risky Dressers on Youth), e, em setembro de 2023, a CPSC oficializou a adoção da norma ASTM F2057-23 como padrão de segurança obrigatório. Esse padrão exige que os móveis sejam testados quanto à estabilidade.

A responsabilidade por trás do design de móveis

Enquanto isso, no Brasil, o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) é o órgão responsável por fiscalizar e coordenar a segurança de produtos de consumo. 

Há registros de recalls de berços, cadeiras e camas devido a falhas estruturais ou risco de ferimentos, mas ainda não existe uma regulamentação específica obrigatória para estabilidade de móveis residenciais. 

Relatos de acidentes com móveis existem, mas não são amplamente notificados ou sistematizados. O Inmetro também recomenda que os consumidores fixem móveis à parede como medida de prevenção, mas essa prática ainda é pouco difundida entre fabricantes e usuários.

Segurança em primeiro lugar: a responsabilidade por trás do design de móveis

Projetar móveis com segurança não é uma opção. É uma responsabilidade. É preciso testar, simular, pensar o uso real e antecipar os comportamentos inesperados, especialmente em ambientes com crianças. 

O uso de normas internacionais já existentes, como as da ASTM, pode – e deve – ser uma referência até que o Brasil estabeleça seus próprios requisitos obrigatórios nesse sentido.

A segurança não tira a beleza, nem limita a criatividade do design. Ela dá sentido ao que se faz. Porque no fim do dia, um bom projeto é aquele que respeita quem vai usá-lo. E a vida de uma criança nunca pode ser o preço de um móvel mal planejado.

Para as empresas brasileiras que desejam se adequar aos requisitos do mercado norte-americano, já é possível realizar os ensaios de estabilidade exigidos pelo Sturdy Act aqui mesmo no Brasil.

A responsabilidade por trás do design de móveis

O Instituto Senai de Tecnologia em Madeira e Mobiliário, em Santa Catarina, é atualmente o único laboratório do país reconhecido pela CPSC (Consumer Product Safety Commission) como apto a realizar os testes de conformidade com a norma ASTM F2057-23. 

A estrutura foi desenvolvida com base em capacitação técnica internacional, dispositivos específicos de ensaio e acreditação pela CGCRE/Inmetro para atender às exigências dos Estados Unidos com credibilidade e competência.

Isso significa que empresas brasileiras interessadas em exportar móveis como cômodas, roupeiros e armários para o mercado norte-americano não precisam mais buscar laboratórios no exterior para validar seus produtos.

Segurança em primeiro lugar: a responsabilidade por trás do design de móveis

Basta procurar o Senai/SC, que oferece todo o suporte técnico necessário para realizar os ensaios, interpretar os resultados e orientar ajustes no projeto, quando necessário. 

Além de reduzir custos e prazos, esse movimento fortalece a competitividade da indústria nacional e sinaliza um compromisso claro com segurança, qualidade e responsabilidade no desenvolvimento de móveis.

A responsabilidade por trás do design de móveis

Escreveu esse artigo

Sandra Fürst, que é engenheira de produção e CEO na SK Mentoria e Desenvolvimento.

Engenheira de produção e tecnóloga moveleira, é especialista em normatização, certificação e conformidade no setor moveleiro. Com experiência internacional, atuou em laboratórios nos Estados Unidos e na Europa, aprofundando seu conhecimento em testes de qualidade, segurança e desempenho de móveis.

Atualmente, coordena o Instituto Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) de Tecnologia em Madeira e Mobiliário em Santa Catarina, liderando iniciativas que promovem inovação, excelência e conformidade na indústria moveleira.

Apaixonada pelo desenvolvimento profissional, também atua como mentora em gestão de carreiras e negócios, ajudando profissionais e empreendedores a estruturarem estratégias, tomarem decisões assertivas e alcançarem crescimento sustentável em suas áreas de atuação.

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