Reforma Tributária pode ser a maior mudança de competitividade da indústria brasileira nas últimas décadas

Reforma Tributária pode ser a maior mudança de competitividade da indústria brasileira nas últimas décadas

A Reforma Tributária deve transformar a dinâmica competitiva do setor moveleiro, favorecendo empresas que investem em eficiência, governança, tecnologia e planejamento de longo prazo. Sendo assim, tende a acelerar a profissionalização do mercado e reduzir o espaço para a informalidade

Na minha visão, o maior erro é acreditar que a Reforma Tributária seja apenas um assunto do departamento fiscal.

Ela não é. Ela muda a forma como compramos, muda a forma como produzimos, muda a logística, muda a precificação, muda o capital de giro, muda a tecnologia e muda a relação com fornecedores e clientes.

No setor moveleiro, isso é ainda mais relevante.

Somos uma cadeia longa, formada por milhares de empresas, centenas de fornecedores, operações industriais complexas, diferentes estados, centros de distribuição, marketplaces, exportação, incentivos fiscais e milhares de SKUs.

Mas existe um ponto que merece uma reflexão ainda maior.

O segmento moveleiro brasileiro sempre foi extremamente fragmentado. Especialmente nas empresas que trabalham com painéis de MDF e MDP e atendem diretamente o consumidor final, ainda existe um nível significativo de informalidade.

Agora eu faço uma pergunta: o que acontecerá quando o novo modelo tributário estiver plenamente implantado e mecanismos como o Split Payment passarem a integrar a rotina das operações, conforme previsto na regulamentação?

Reforma Tributária pode ser a maior mudança de competitividade da indústria brasileira nas últimas décadas

A tendência é que a informalidade deixe de representar qualquer vantagem competitiva.

O espaço para operações paralelas tende a diminuir à medida que o crédito tributário passe a depender de operações regularmente documentadas e que a tecnologia permita um cruzamento de informações cada vez mais eficiente ao longo de toda a cadeia.

Isso muda completamente a lógica do mercado.

A Reforma Tributária tende a valorizar exatamente as empresas que já investem em governança, planejamento tributário, eficiência operacional, tecnologia, controles internos e produtividade.

Em um País onde a carga tributária pode representar quase um terço da receita, esse “detalhe” não tem absolutamente nada de pequeno. Na prática, ele pode separar definitivamente quem continuará competitivo de quem ficará para trás.

Muitos dizem que o brasileiro sempre encontra uma forma criativa de se adaptar, e isso sempre fez parte da nossa realidade, mas acredito que desta vez estamos diante de um cenário diferente.

O Estado precisa arrecadar, e a tecnologia permitirá um cruzamento de dados cada vez mais sofisticado.

Os grandes canais de distribuição estarão cada vez mais preocupados com compliance, rastreabilidade e conformidade fiscal. Toda a cadeia caminhará para um ambiente muito mais transparente.

Indústria brasileira pode passar pela maior mudança de competitividade das últimas décadas

Na minha visão, isso não representa apenas uma consolidação do setor, representa uma nova fase para a indústria moveleira brasileira. 

Se a lógica dos créditos tributários passar a acompanhar praticamente todas as transações, a competitividade deixará de depender de atalhos e passará a depender de eficiência.

Talvez vejamos um crescimento ainda maior da industrialização por terceiros. Fábricas produzindo para diversas marcas, empresas focadas na construção de audiência, marca, design e relacionamento com o consumidor, e produtos cada vez mais especializados.

Modelos de negócio que já transformaram outros segmentos tendem a ganhar força também no nosso setor. Por isso, não devemos olhar para a Reforma Tributária apenas pelo lado da dificuldade.

Devemos enxergar as oportunidades. É hora de revisar a cadeia de suprimentos, entender os impactos financeiros do novo modelo, rever a formação de preços, preparar ERPs, cadastros fiscais e processos internos, simular cenários, investir em inteligência de dados e, principalmente, fazer contas.

Os juros provavelmente continuarão elevados por mais algum tempo. O custo do capital seguirá pressionando as empresas.

Quem produzir melhor, girar mais rápido, reduzir desperdícios e utilizar seus ativos com maior eficiência terá uma vantagem competitiva enorme.

Reforma Tributária pode ser a maior mudança de competitividade da indústria brasileira nas últimas décadas

Ainda temos algum tempo para nos preparar. A pergunta não é se a Reforma Tributária impactará o setor moveleiro, porque ela certamente impactará. A verdadeira pergunta é: quem começará a se preparar agora e quem deixará para reagir quando o mercado já tiver mudado?

Mesmo que a inflação pressione parte do consumo no curto prazo, também é possível que a redução do número de ofertantes reorganize o mercado em um novo patamar de competitividade.

Tenho convicção de que veremos um setor moveleiro mais profissional, mais eficiente e, principalmente, mais rentável.

Empresas que entregam qualidade, produtividade, inovação, governança e marcas fortes continuarão crescendo.

A Reforma Tributária não deve ser encarada apenas como uma mudança de impostos.

As empresas que sobreviverão não serão, necessariamente, as maiores. Serão aquelas que conseguirem aprender, adaptar seus modelos de negócio e executar mais rápido do que o mercado.

Indústria brasileira pode passar pela maior mudança de competitividade das últimas décadas

Escreveu essa coluna

Diego Simões Munhoz, que concluiu o ensino médio no Canadá, na Leboldus High School, é formado em Administração de Empresas pela Unopar (Universidade Norte do Paraná) e possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV (Fundação Getulio Vargas). 

Munhoz iniciou sua trajetória ainda jovem na empresa da família, passando por diferentes áreas da indústria moveleira. Em 2009, liderou, ao lado de outros executivos, a construção de um planejamento robusto, que passou a ser revisado anualmente. 

Em 2019, assumiu o cargo de CEO da Caemmun após um processo estruturado de sucessão familiar, que incluiu mentoria e implantação de práticas de governança corporativa. Também atua como sócio-administrador em empresas de diferentes segmentos.

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