Visitar o Salone del Mobile é a parte fácil. O que a maioria dos designers de móveis ainda tropeça é em sair da forma e chegar no conceito por trás do que foi visto, e é isso que separa um produto comum de um produto desejado. Nesta coluna, Gilson Vaz mostra como traduzir as referências de Milão em 2026 para o móvel seriado brasileiro sem encarecer a produção, fazendo escolhas de projeto mais conscientes
Todo ano, o Salone del Mobile entrega uma enxurrada de referências. Formas orgânicas, materiais naturais, peças conceituais e cenários que mais parecem instalações artísticas do que ambientes reais.
Estive presencialmente por lá e realmente é inspirador, mas também levanta uma pergunta incômoda: o que, de fato, dá pra trazer disso tudo para dentro da indústria brasileira?
Porque entre o que a gente vê em Milão e o que chega no varejo existe uma certa distância. E não é só uma questão de custo. É, principalmente, uma questão de interpretação.
A indústria brasileira ainda olha para a feira como um catálogo de formas. Copia uma curva aqui, um acabamento ali, muda a cor e segue o jogo. Mas o que está sendo apresentado lá fora não é forma isolada, mas conceito, comportamento e intenção de uso.
E é justamente aí que algumas indústrias começam a se perder.

Quando a gente fala de mobiliário seriado, principalmente em MDP e MDF, existe uma tendência de simplificar demais o que vem de fora, como se traduzir tendência fosse reduzir tudo ao que é mais fácil de produzir. Mas não precisa ser assim.
Se a gente observar com mais atenção, dá pra extrair caminhos muito mais inteligentes, e esse é nosso desafio enquanto designers de móveis.
As formas orgânicas, por exemplo, não precisam virar peças complexas e inviáveis. Elas podem aparecer em detalhes estratégicos: um raio de borda mais generoso, um recorte diferente ou um afastamento que quebra a rigidez do módulo.
Pequenas decisões que já mudam completamente a percepção do produto.

O mesmo acontece com a ideia de sensorialidade, que apareceu com força. Não é sobre usar materiais nobres inacessíveis, é sobre como o produto se relaciona com o toque, com a escala, com o conforto visual. Às vezes, isso está mais na proporção do que no material em si.
Outro ponto forte é a multifuncionalidade. Não como um recurso mecânico complexo, mas como resposta ao comportamento atual.
Ambientes menores, usos sobrepostos, necessidade de adaptação. Isso é extremamente aplicável ao nosso mercado, mas precisa ser pensado desde o início do projeto, e não como um “extra” encaixado depois.
O problema é que ainda existe uma desconexão entre design e estratégia dentro de muitas indústrias. O produto nasce para preencher portfólio, não para responder a um cenário real de uso.
E Milão deixa isso muito claro: não é sobre o móvel em si, e sim o contexto que ele ocupa.

Trazer isso para o móvel seriado não significa encarecer o produto ou complicar a produção. Significa projetar com mais intenção, fazer escolhas mais conscientes e entender que design não é custo, é direcionamento.
A diferença entre um produto comum e um produto desejado raramente está na complexidade. Está na solução, na clareza da ideia.
E talvez esse seja o principal aprendizado que o Salone del Mobile entrega todos os anos. Assim, não é copiar o que foi visto, mas entender o que faz aquilo fazer sentido e ter repertório e critério para traduzir isso dentro da nossa realidade, e isso nós sabemos bem.

Escreveu esse artigo
Gilson Vaz, que é designer de Interiores com MBA em Criatividade e Inovação. Atualmente, é diretor criativo do Estúdio Gilson Vaz. Atua há mais de 10 anos junto a indústrias moveleiras e de acessórios, nos departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento.
