Com base em 20 pilares que unem técnicas e gestão, o conceito de WCM (World Class Manufacturing), apresenta uma metodologia estruturada para eliminar desperdícios, elevar a produtividade e consolidar a excelência operacional nas indústrias moveleiras
Prezadas e prezados,
Nas últimas colunas (Competitividade empresarial: estratégias para se destacar no mercado, Integração inteligente: como a estratégia empresarial se alinha à estratégia industrial?, Estratégia industrial: diferencial competitivo que nasce no chão de fábrica e Como desenvolver uma estratégia de produção: da teoria à prática) abordamos, de maneira sucinta, os principais tópicos de estratégia empresarial à estratégia de produção, detalhando os principais conceitos e sugerindo uma estrutura para a elaboração da estratégia de produção.
Já nas duas últimas (Lean Furniture: Manufatura Enxuta aplicada no setor moveleiro e Teoria das Restrições e OPT: fortalecendo o elo mais fraco da sua fábrica) começamos a nos aprofundar nos Sistemas de Produção desenvolvidos para gerenciar a produção de maneira efetiva (eficaz e eficiente), detalhando os conceitos da Manufatura Enxuta (Lean Manufacturing) específica para o setor moveleiro (Lean Furniture) e da Teoria das Restrições (Theory of Constraints – TOC). Na coluna de hoje, abordaremos a Manufatura de Classe Mundial (WCM – World Class Manufacturing), que possui características de outras teorias, como a Manufatura Enxuta.

Origem do WCM
O termo World Class Manufacturing surgiu na década de 1980, impulsionado pelos estudos de Robert H. Hayes e Steven C. Wheelwright em Restoring Our Competitive Edge: Competing Through Manufacturing (1984).
Dessa forma, em 1986, Richard J. Schonberger consolidou o conceito em seu livro World Class Manufacturing: The Lessons of Simplicity Applied, sistematizando práticas como Lean, TPM e qualidade total para promover excelência operacional.
A teoria do WCM surgiu a partir de estudos realizados em empresas do Japão e da Alemanha sobre práticas de produção desenvolvidas que permitiram maior desempenho e competitividade industrial.
E nas décadas de 1990 e 2000, o Dr. Yamashina expandiu os conceitos originais para um sistema de gestão estruturado e holístico. Ele criou o “dual-pillar framework”, com 10 pilares técnicos e 10 pilares gerenciais, que fornece um roteiro para implementação e adaptação do WCM fora do Japão.
Essa versão do WCM, por sua vez, foi adotada por grandes corporações como Fiat e Chrysler, incluindo as subsidiárias do Brasil.

Princípios do WCM
O WCM apresentado por Hajime Yamashina oferece uma abordagem estruturada e holística para alcançar a excelência operacional. Baseando-se em conceitos de fabricação japoneses anteriores, a contribuição de Yamashina foi formalizar a metodologia em um sistema abrangente e integrado. Assim, o núcleo de sua teoria é a eliminação de todas as formas de desperdício e ele apresenta isso a partir do “dual-pillar framework”.
A WCM de Yamashina, portanto, se baseia na busca por “zero”:
- Zero quebras: maximização da eficiência e confiabilidade de todos os equipamentos;
- Zero defeitos: garantia de que nenhum produto com falha chegue ao cliente;
- Zero estoque: minimização de materiais e produtos acabados armazenados, produzindo apenas o necessário, no momento necessário;
- Zero desperdício: identificação e remoção sistemática de todas as atividades que não agregam valor ao cliente.
Dual-pillar framework
A imagem abaixo exemplifica o framework de Yamashina.

Abaixo serão detalhados os pilares com as separações nos grupos de pilares técnicos e pilares gerenciais.
1. Pilares técnicos
Focam nas ferramentas e métodos operacionais para alcançar os “zeros” no chão de fábrica, com ênfase em processos, equipamentos e controle de qualidade.
1.1. Segurança: age proativamente para prevenir acidentes, criando um local de trabalho seguro, limpo e ecologicamente consciente;
1.2. Desdobramento de custos (Cost deployment): identifica e quantifica as perdas e o desperdício em termos monetários, priorizando os esforços de melhoria com base no impacto econômico;
1.3. Melhoria focada (Focused improvement): conduz projetos de curto prazo e direcionados para eliminar uma perda específica e de alta prioridade;
1.4. Manutenção autônoma: capacita os operadores a realizarem a manutenção básica de seus próprios equipamentos, evitando que problemas pequenos se tornem grandes;
1.5. Manutenção profissional: conta com equipes de manutenção especializadas para realizar análises complexas, planejar intervenções e maximizar a Eficácia Geral do Equipamento (OEE, na sigla em inglês);
1.6. Controle de qualidade: implementa um sistema robusto para garantir produtos sem defeitos por meio do controle de processo e da análise da causa-raiz;
1.7. Logística: otimiza o fluxo de materiais, do fornecedor ao cliente, para garantir entregas just-in-time e aumentar a satisfação do cliente;
1.8. Gestão preventiva de equipamentos e produtos: inclui equipes de manutenção e produção na fase de projeto de novos produtos e equipamentos, para garantir a máxima eficiência;
1.9. Desenvolvimento de pessoas: investe em treinamento e qualificação da força de trabalho, criando uma equipe competente, flexível e motivada;
1.10. Ambiental e energia: concentra-se na redução do desperdício de energia e na melhoria da eficiência energética.

2. Pilares gerenciais
Estes, por sua vez, focam nos sistemas de gestão e na mentalidade cultural necessários para sustentar as melhorias técnicas.
2.1. Envolvimento da direção: a liderança deve demonstrar um apoio visível e consistente aos princípios da WCM;
2.2. Clareza de objetivos e KPIs: as metas da WCM devem ser claramente definidas, comunicadas e compreendidas por todos os funcionários. Além disso, incentiva o uso de dados e Indicadores-Chave de Desempenho, os KPIs, em tempo real para tomar decisões;
2.3. Mapa do caminho para WCM: um plano estratégico claro guia o processo de implementação, desde a avaliação inicial até a implementação em larga escala;
2.4. Alocação de pessoas qualificadas: garante que o pessoal qualificado seja alocado nos papéis e tarefas certos, especialmente em áreas-modelo iniciais;
2.5. Envolvimento da organização: todos os colaboradores devem estar envolvidos com as ações de redução de desperdícios e solução de problemas;
2.6. Competência da organização para melhoria: toda a organização deve estar preparada para resolver problemas e, se possível, preveni-los;
2.7. Alocação de recursos (tempo e budget): recursos específicos são necessários para apoiar as iniciativas da WCM;
2.8. Nível de expansão: expande gradualmente a implementação da WCM para outras áreas e instalações;
2.9. Nível de detalhes: destaca a importância do planejamento abrangente e da atenção aos detalhes;
2.10. Motivação dos operadores: usa sistemas de incentivo e reconhecimento para engajar e motivar os funcionários.

Processo de implementação da WCM
A metodologia de Yamashina envolve um processo de implementação em fases:
- Identificar o problema: usar ferramentas como o desdobramento de custos para identificar e quantificar as perdas mais significativas;
- Definir a perda: definir claramente o problema específico e seu impacto;
- Restaurar as condições básicas: eliminar as causas da perda e restaurar os equipamentos ou processos ao seu estado ideal;
- Controlar os resultados: implementar sistemas para monitorar e sustentar os ganhos, muitas vezes por meio de um sistema de pontuação auditado.
Essa abordagem estruturada, então, garante que as melhorias não sejam soluções temporárias, mas se tornem uma parte permanente da cultura operacional da empresa.

WCM no Brasil: práticas e exemplos
No Brasil, existem dois exemplos de aplicação de WCM que foram mundialmente premiados: FPT Industrial Brasil e Volvo.
FPT Industrial Brasil – Unidade de Sete Lagoas (MG)
- A planta de motores em Sete Lagoas obteve a classificação Silver no WCM, após auditoria que destacou forte desempenho em motivação dos operadores, manutenção profissional, segurança, nível de detalhe e nível de expansão;
- Desde então, foram implementadas melhorias ergonômicas, reorganização de layout e digitalização dos processos, com destaque para a criação de uma “Compass Room” digital, que integrou diferentes áreas e reduziu desperdícios de tempo e materiais. Isso resultou em até 10% de ganho de produtividade;
A fábrica também alcançou a meta de Aterro Zero, reciclando 100 % dos resíduos, reforçando seu compromisso com a sustentabilidade.

Volvo do Brasil – Divisão Powertrain
- A divisão Powertrain da Volvo no Brasil foi a primeira unidade do grupo Volvo no mundo a conquistar o prêmio WCM, em 2009, durante evento em Istambul, Turquia;
- Os critérios de avaliação incluíram qualidade, rapidez na entrega, flexibilidade e inovação. Foram adotados os pilares técnicos do WCM, como: segurança, logística, cost deployment, desenvolvimento de pessoas, controle de qualidade, melhoria focada, atividades autônomas, manutenção profissional, gestão antecipada de equipamentos e meio ambiente;
- Esse reconhecimento ressaltou o foco da Volvo no cliente e sua cultura de excelência operacional.
Dessa forma, o WCM possui uma base muito forte na Manufatura Enxuta (Lean Manufacturing), mas possui uma estruturação robusta para a implementação, apresentando diretrizes claras. Além disso, existem premiações para empresas que atendam a excelência em WCM, como a World Class Manufacturing Association Award, que premiou as empresas brasileiras.
Na nossa próxima coluna detalharemos mais um Sistema de Produção conhecido como HPM (High Performance Manufacturing).
As referências utilizadas para escrever essa coluna foram:
Rossetti, Gabriel. Descubra os pilares gerenciais do WCM para impulsionar os ganhos das empresas: o WCM se baseia em 10 pilares técnicos e gerenciais. Grupo Voitto. 2022. Acesso disponível em: https://voitto.com.br/blog/artigo/pilares-gerenciais-do-wcm.
Até a próxima!

Escreveu essa coluna
André Gazoli, que possui uma sólida formação acadêmica, destacando-se pela graduação em Engenharia de Produção (2008), mestrado em Engenharia de Produção e Sistemas (2012, com ênfase em Mass Customization na indústria de automóveis) e doutorado em Engenharia de Produção e Sistemas (2019, com ênfase em Lean Manufacturing na indústria moveleira), todos pela renomada instituição PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).
Atualmente desempenha papel fundamental como professor adjunto na prestigiosa UFPR (Universidade Federal do Paraná), no Campus Jandaia do Sul, onde contribui ativamente para o desenvolvimento e aprimoramento do ensino e pesquisa na área de Engenharia de Produção.
Sua experiência abrange uma vasta gama de conhecimentos, com foco específico em áreas como Produção Enxuta, Mass Customization, Simulação de Eventos Discretos, Planejamento e Controle da Produção e Gestão de Operações.
Destaca-se por sua atuação em projetos relevantes no LEPEP (Laboratórios de Extensão e Pesquisa em Engenharia de Produção), sendo reconhecido por sua contribuição significativa para a evolução e aplicação prática de conceitos inovadores nesse campo.
