Em um cenário de constantes transformações econômicas e tecnológicas, a sucessão familiar se tornou um dos maiores desafios da indústria brasileira. A passagem de bastão entre gerações não é apenas um processo emocional; é, sobretudo, uma questão estratégica que pode determinar a continuidade ou o fim de negócios construídos com décadas de dedicação. Em muitas empresas, o que era antes resolvido com base na afinidade ou na ordem cronológica dos filhos hoje demanda preparo técnico, visão de futuro e profissionalização da gestão. Nesse contexto, a palavra-chave é planejamento: sem ele, a transição pode ser turbulenta e comprometer a competitividade da empresa no mercado.
O tema da sucessão familiar tem ganhado força entre entidades empresariais, consultorias e universidades. Segundo dados do Sebrae (2022), mais de 90% das empresas no Brasil são familiares, mas apenas 30% chegam à segunda geração, e menos de 10% à terceira. O risco de descontinuidade é alto. Por isso, discutir a profissionalização da gestão nesse processo não é mais um luxo, e sim uma necessidade para garantir a longevidade dos negócios. A indústria, que enfrenta demandas cada vez mais sofisticadas, precisa de lideranças capacitadas para manter inovação, produtividade e solidez institucional.
Esta matéria investiga os impactos da sucessão familiar no desempenho das indústrias brasileiras. Você vai entender os benefícios, riscos e caminhos possíveis para garantir uma transição segura, planejada e estratégica. Ainda mais:
- Sucessão familiar é uma tendência crescente na indústria brasileira?
- Quais são os principais riscos de uma transição mal planejada?
- Como a profissionalização da gestão impacta os resultados da empresa?
- Que papel as consultorias e entidades de apoio podem ter nesse processo?
- Como os líderes da nova geração estão se preparando para assumir?
Cenário atual exige mudança de mentalidade
A sucessão familiar é um tema delicado e frequentemente adiado nas indústrias moveleiras, principalmente porque, do ponto de vista do sucedido, ela remete à finitude. Embora a palavra sucessão signifique prosseguimento e avanço para a empresa, para o fundador, o tema pode evocar um senso de encerramento de ciclo. “O ideal é mudar de papel, assumir outros compromissos, mas a dificuldade de abrir mão de seu dia a dia na empresa que criou torna-se um exercício de desapego muito desafiante”, explica Dalton Penedo Sardenberg, PhD e professor da Fundação Dom Cabral.
Segundo ele, outro desafio reside na visão limitada sobre o processo, muitas vezes focado apenas na gestão. “Fundadores raramente dialogam com seus herdeiros sobre o real interesse em manter o controle familiar da propriedade. É crucial preparar os filhos para serem donos, mesmo que não venham a ser gestores futuramente”, completa.
Por que profissionalizar a gestão garante segurança
Ao abordar a profissionalização da gestão, Dalton Sardenberg destaca que é preciso ter cautela com a expressão. “Muito se tem utilizado a expressão ‘profissionalizar uma empresa’ apenas no sentido de buscar um gestor não familiar, enquanto o sentido correto é o de adotar métodos, sistemas e criar uma governança que garanta um funcionamento adequado e eficiente da organização”.
Ele defende que empresas familiares podem e devem ser administradas por familiares, desde que esses demonstrem vocação e desejo genuíno de contribuir para a longevidade da organização. “A sucessão deve ser vista como um processo, não como um evento. A escolha dos participantes e a definição das etapas de preparação são fundamentais”, afirma.
Desafios emocionais ainda travam o processo
No dinâmico setor moveleiro, a sucessão familiar pode determinar a longevidade de uma empresa. Dalton Sardenberg relata um caso concreto em que uma empresa com dois sócios enfrentou um dilema: enquanto um deles tinha filhos engajados no negócio, o outro viu seu filho escolher uma vaga de trainee em uma das Big Four. “O pai se frustrou ao pensar que havia perdido seu sucessor. Mas, com apoio, compreendeu que essa experiência externa enriqueceria o filho e o prepararia para contribuir no futuro”.
Cinco anos depois, o filho retornou à empresa, mais maduro e preparado para assumir responsabilidades. O caso ilustra a importância do diálogo e da compreensão de que trajetórias externas também podem fortalecer o processo sucessório.

Equilibrar modernização e cultura familiar é essencial
Sardenberg afirma que é comum que a nova geração, ao assumir o controle, deseje se legitimar e imprimir sua marca. Isso pode levar a um afastamento dos valores fundadores. “Afastar-se do DNA da empresa é um risco considerável. O conceito africano de Sankofa ensina a olhar para o passado enquanto se avança, construindo um futuro mais consciente”, exemplifica.
Ele reforça que o respeito mútuo entre sucedido e sucessor é um dos pilares para o sucesso. A integração de práticas modernas deve ocorrer sem romper com a base cultural da empresa. “A inovação é uma evolução, não uma revolução”, resume.
Planejamento garante reputação e continuidade
Segundo Sardenberg, uma empresa atinge a longevidade quando sua marca se torna maior que o nome do fundador. “Quando a credibilidade está excessivamente ancorada na figura do criador, o negócio corre risco. E o mesmo vale para as relações com fornecedores e clientes”.
Ele observa que muitas empresas falham em promover gradualmente a aproximação dos sucessores com stakeholders estratégicos. “Isso dificulta a transferência da legitimidade e da confiança. A falta de um plano estruturado gera incertezas e pode afetar a imagem da marca, abalar parcerias e comprometer a continuidade”.
Como começar a preparar o futuro agora
Para Dalton, o processo sucessório começa cedo. “Até os 7 anos, é importante criar um vínculo emocional dos herdeiros com o negócio. Isso cria memórias afetivas que conectam a história da família à empresa”. Ele destaca que mesmo quem não atua diretamente pode apoiar quem tem vocação ou ajudar um gestor externo.
Aos que demonstram interesse, ele recomenda estágios, programas de trainee, formação superior alinhada e experiências fora da empresa. “Tudo isso prepara o herdeiro para contribuir com mais maturidade. A sucessão bem-sucedida é aquela que garante a continuidade e o crescimento para as futuras gerações”, conclui.
